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Parto

Nasceram pessoas dentro de mim. Não foi como numa tempestade destas que se faz notar antes que chegue para arrasar as terras, uma tempestade que se avisa no céu fechando, no vento aumentando sua voz, no pingo anunciante da chuva. Não. Foi de repente, como se num instante sol, noutro granizo.

Um dia, nasceram pessoas em mim.

Há uma bailarina muito branca de sapatilhas entrelaçadas nas entrelaçantes pernas que cruzam meu umbigo. Tem o cabelo negro e arrebatador e chora por um olho só quando eu canto as minhas histórias de amor impossível. Ela dança, dança, dança, dança como se dançar provasse alguma coisa, remediasse alguma coisa, costurasse alguma coisa. Ela dança.

Um dia, nasceram pessoas em mim.

Há um bêbado de boné quadriculado que me oferece tragos na vista larga do meu ombro esquerdo. Ele se senta lá, olha esse horizonte de mim que nunca, nunca se afirma, e diz que ainda alcança, com o torno de seu braço que a vida desenhou, uma ilha que ele vê longe. O bêbado, este bêbado que quer me embriagar aos poucos, planeja fugir num navio de sereias. Eu sei. E dói.

Um dia, nasceram pessoas dentro de mim.

Há uma noiva que me comunga. Veste branco dolorido e troteia a nave que vai das minhas coxas ao vale dos seios. Desta, invejo a castidade da crença, a lisura do buquê amor-perfeito e dos doces bem-casados. Eu a invejo em palavras duplas. Ela grinalda o que me resta de noite e penso que adormeço (só penso, eu nunca adormeço). A noiva me prende o anelar esquerdo ao seu - aliança dourada - e diz “vem”, como se seguir fosse possível além daqui.

Um dia, nasceram pessoas dentro de mim.

Há um vilão, um assassino que esconde entre as minhas costelas uma lança afiada. Nada diz, mas sorri enquanto eu sangro. E mais sorri. E mais eu sangro. A tortura é cálida em expressar paixão, eu sei e você sabe, e eu me devoto. Há um vilão que me ama. Que eu odeio. Entre as minhas costelas, o mundo de assalto, o crime pego de surpresa. Há um vilão que me odeia. Que eu amo.

Um dia, nasceram pessoas dentro de mim.

Há uma menina. Ela lê um livro e nunca me mostra. Não sei da capa, nem dos versos, nem da epígrafe, nem do meu provável epitáfio. Ela vira páginas, faz pilhéria da minha ignorância, rouba um afago do meu cabelo loiro e convida meus dedos para brincar. Não é triste, nem é sábia. Só lê e troça, a menina, numa história que vai enredando finais, que vai se contando. Trincheira por trincheira, arma de verbo na mão, guerra no fim, a menina.

Há outros. Há multidões que me lambem o cárcere das veias.

Em mim, jazem pessoas.

Giovana

Um Jantar Inusitado em Tokyo

A saia, de natureza justa, insiste em se ajustar mais ainda às formas injustas da natureza do meu corpo. Não sei se dobro as pernas – direita sobre a esquerda ou o contrário – ou se bato as palmas nas coxas. Tenho medo de desfiar a meia preta que combina com o sapato de salto preto que combina com o cinto preto que não combina em nada com a camisa verde. Ele não vem mais. Ele não vem mais, tenho certeza, apesar de ainda ser dez para as onze e o encontro ter sido marcado – anotado, rastejado, pedido, implorado – para onze. Mãos sobre a mesa, unhas vermelho-sangue-fogueira (são vermelhas as fogueiras?) traduzindo minha impaciência. Plecplecplecplec (indicador-dedomédio-anular-mindinho). Vou irritar o cara da mesa ao lado. Ele não vem mais. Ele não vem mais, são onze, e as onze os metrôs lotam de menininhas de rostos corados e desejos a labaredear-se pelas pernas. Odeio cada uma delas e cada um dos seus vinte anos e cada uma das folhas das odiosas pastas universitárias que elas levam entre seus colos aprumados, seios atrevidos, bicos rosados e empertigados. Odeio. Esses infames rostos sem rugas de sorrisos. Odeio. Odeio esses hormônios que um dia se vão. Odeio. Ele não vem mais. São onze e dez. Faz dez e ele nunca se atrasa. Ele não vem mais. Perdi por dez, perdi de dez, perdi pras dez. A saia tão bem passada, a meia sem nenhum rasgo, os seios em soutien de bojo, a cinta a me apertar as banhas, o culote e a alma, esse colar de pérolas falsas daquela falsa da minha mãe, o batom mil vezes conferido e realinhado. Ele não vem e só me resta o desajuste solitário do meio-fio, o barulho autêntico do salto nos degraus da madrugada do meu prédio de solteiras e o sono meu – só meu, só, só meu, sem o calor de ninguém.
- Moço, dá minha conta?
- Pra já.
- Ué, que tá escrito aqui?
- A sua conta. Dez Iene
- Tenho que pagar em Iene?
- Claro! Estamos em Tokio.
- Puta que pariu! Errei o país.

Giovana