De repente

- Conto-lhes um causo cantado que se sucedeu num outono passado. Eram dois repentistas: ele, João do Refrão; ela, Rita da Rima Bonita. Ele: de chapéu de palha, bigode tão fino, barbicha e sandálias. Ela: de vestido de chita e cintura marcada por laço de fita. Espreitavam-se nas praças, nas feiras, nos coretos. Fosse dia de missa ou fosse de torneio. Ela, de longe, o assistia a desafiar quem ousasse dizer poesia. Ele também espiava a moça de duas violas, e, se fosse surpreendido, fingia-se distraído: rabo-de-olho corrigido em assobio.

Até que se encontraram, por um acaso um tanto premeditado (o feito tinha dedo do prefeito, que era primo do rapaz). O cartaz, de dizeres pomposos em letras azuis, convidava o povo para a festa de rimas no São João da vila e anunciava a esperada atração: o do Refrão versus a Rita!

Era chegado o dia! Bandeirolas estendidas por toda a avenida. Multidão de sentimentos. Acordeom. Sanfona preferida que infla, sustenida, seus foles no pulmão. Arrepio na pele e quentão!

Rita e João chegaram a tempo. No peito, disparada percussão e um ardido e alado balão - pronto para voar vida afora e atirar-se céu adentro.

Esperava-se que o moço, bem-apessoado e galante, comandasse o início da trova e a viola trinasse num instante. Mas o sangue lhe subia às faces e lhe faltava às pernas; suava feito um porco a caminho do matadouro, e mantinha-se mudo, enquanto a multidão gritava: “Começa!”

Pra não se fazer de rogado, o rapaz, que já tanto havia praticado, emendou uma rima inspirado nos enfeites da menina. Citou o vestido rendado, pregueado, bordado e rodado. O cabelo de tranças cheias comparou-os com duas correias.  E cadeados. Não esperava o resultado.  O povoado, acostumado a casamento na roça em anedotas, julgou ter entendido o recado. Os homens fugidios e os arrependidos recém-casados uma gargalhada sem fim entoaram. João do Refrão, agora pavão animado, seguiu a fazer piada de sua bem-amada.

A moça de nada gostou. E alguém gritou que ela estava era irRITAda. Novas gargalhadas. Vendo seu olhar já marejado, o rapaz, desesperado, queria voltar atrás. Como fazê-la perceber que, encantado, sentiu-se encabulado porque lhe era tão linda, e que não lhe parecia uma planta natalina?

Mas, da Rita, era a vez. Não demorou um minuto, nem três. Saiu-lhe feito cuspido e desandou a vomitar palavras de duplo-sentido:

- Mas que língua tão ferina,
tão hábil, enquanto dribla.
Com requinte de ironia
A minha palavra amiga.
Tão ágil, samurai, esse seu sabre de araque.
rasga, rosna, canta e corta
a palavra de quem te gosta

Imagina em outra arena,
Não na quadra do poema.
Não na fábrica de rima.
Dessa terra outra trincheira,
outra briga verdadeira,
outra guerra nessa vida...

Seriam fortes outras línguas
que se esmerassem em esgrima?
Outra lâmina seria assim tão maldita?
Me diga você...
Dito assim, ponto pra mim.
Se não me engano, essa partida, eu ganho.
Touché!

Salvas de palmas para a Rita - que ganhou prêmio e apelido de Rita da Boca Maldita. O romance prometido ficou, assim, pra sempre suspendido. Nunca mais, ele teria coragem de abordá-la, o rapaz.

À Rita, envaidecida (embora dissimulasse que estivesse no fundo sentida), questionavam se não estava arrependida do que fez.

- Não. Só que amanhã não sei o que poderei fazer para escrever um poema tão bom... Outra vez.

Liliane

Parto

Nasceram pessoas dentro de mim. Não foi como numa tempestade destas que se faz notar antes que chegue para arrasar as terras, uma tempestade que se avisa no céu fechando, no vento aumentando sua voz, no pingo anunciante da chuva. Não. Foi de repente, como se num instante sol, noutro granizo.

Um dia, nasceram pessoas em mim.

Há uma bailarina muito branca de sapatilhas entrelaçadas nas entrelaçantes pernas que cruzam meu umbigo. Tem o cabelo negro e arrebatador e chora por um olho só quando eu canto as minhas histórias de amor impossível. Ela dança, dança, dança, dança como se dançar provasse alguma coisa, remediasse alguma coisa, costurasse alguma coisa. Ela dança.

Um dia, nasceram pessoas em mim.

Há um bêbado de boné quadriculado que me oferece tragos na vista larga do meu ombro esquerdo. Ele se senta lá, olha esse horizonte de mim que nunca, nunca se afirma, e diz que ainda alcança, com o torno de seu braço que a vida desenhou, uma ilha que ele vê longe. O bêbado, este bêbado que quer me embriagar aos poucos, planeja fugir num navio de sereias. Eu sei. E dói.

Um dia, nasceram pessoas dentro de mim.

Há uma noiva que me comunga. Veste branco dolorido e troteia a nave que vai das minhas coxas ao vale dos seios. Desta, invejo a castidade da crença, a lisura do buquê amor-perfeito e dos doces bem-casados. Eu a invejo em palavras duplas. Ela grinalda o que me resta de noite e penso que adormeço (só penso, eu nunca adormeço). A noiva me prende o anelar esquerdo ao seu - aliança dourada - e diz “vem”, como se seguir fosse possível além daqui.

Um dia, nasceram pessoas dentro de mim.

Há um vilão, um assassino que esconde entre as minhas costelas uma lança afiada. Nada diz, mas sorri enquanto eu sangro. E mais sorri. E mais eu sangro. A tortura é cálida em expressar paixão, eu sei e você sabe, e eu me devoto. Há um vilão que me ama. Que eu odeio. Entre as minhas costelas, o mundo de assalto, o crime pego de surpresa. Há um vilão que me odeia. Que eu amo.

Um dia, nasceram pessoas dentro de mim.

Há uma menina. Ela lê um livro e nunca me mostra. Não sei da capa, nem dos versos, nem da epígrafe, nem do meu provável epitáfio. Ela vira páginas, faz pilhéria da minha ignorância, rouba um afago do meu cabelo loiro e convida meus dedos para brincar. Não é triste, nem é sábia. Só lê e troça, a menina, numa história que vai enredando finais, que vai se contando. Trincheira por trincheira, arma de verbo na mão, guerra no fim, a menina.

Há outros. Há multidões que me lambem o cárcere das veias.

Em mim, jazem pessoas.

Giovana

Vestidos e Namorados

Certa vez, tendo chegado cedo para uma sessão de algum filme no cinema Estação Ipanema, resolvi gastar aquele precioso tempo livre na pequenina loja Mise-en-scène, onde sempre é possível encontrar muitos objetos de grandes desejos nunca antes percebidos. Assim é que um imã perdido em meio a tantos outros displicentemente jogados num balde de alumínio me chamou a atenção e tornou-se, imediatamente, objeto do meu desejo.

O imã, sem diploma universitário ou consultório elegante, estabelece uma inusitada relação de equivalência entre vestidos e ex-namorados, oferecendo às mulheres terapia simplista e objetiva pela bagatela de três reais.

“Ex-namorado é igual a vestido: depois de um tempo, você olha a foto e não acredita que saiu com aquilo”.

Será mesmo...?

A mulher pode ter o vestido que quiser, desde que pague. O namorado que ela quer nem sempre está disponível ou à venda.

Quando uma mulher compra um vestido novo – e falo por experiência própria, já que sou louca por vestidos e tenho uma pequena coleção dentro do armário – torce para que logo surja uma oportunidade para desfilá-lo.

Já namorado novo, muitas vezes não é apresentado de imediato aos familiares e amigos; antes, é preciso ter a certeza de que ele não nos fará passar vergonha e de que sabe falar corretamente, se vestir, se portar à mesa, dançar, conversar sobre variados assuntos, entre tantos outros requisitos.

Mulheres são exigentes com os seus vestidos, sempre desenhados por estilistas famosos ou comprados nas melhores lojas após muito tempo dedicado à escolha do modelo que melhor combine beleza, elegância, sensualidade e preço. E isso porque nos é permitido ter no closet várias opções para cada ocasião - longos, curtos, minis, justos, rodados, decotados, tomara-que-caia, lisos, listrados, estampados...

Mulheres também são cuidadosas com seus vestidos, especialmente os de festa, sempre lavados e passados, quando for o caso, nas melhores lavanderias da cidade.

Já namorado, algumas vezes nos contentamos com o que está disponível na ocasião, só para termos companhia em momentos de carência afetiva e sexual. É uma decisão arriscada, porque, aí, oportunidades melhores podem nos escapar, mas confesso que já fiz isso e tenho a certeza de que vocês também.

Amigas, imaginem se pudéssemos ter vários namorados ao mesmo tempo, um para cada ocasião... Um alto para quando quiséssemos usar saltos altíssimos... Outro nem tanto para quando quiséssemos descansar os nossos pés e usar sapatilhas ou rasteirinhas sem correr o risco de ganharmos um torcicolo... Não. Não adianta sonharmos. Só nos é permitido ter um namorado por vez, sob pena de sermos rotuladas de vagabundas; o que, definitivamente, não combina com nenhum dos modelitos pendurados no meu armário.

Além disso, o namorado, novo ou não, nem sempre recebe o mesmo tratamento VIP dos vestidos e, quando recebe, nem sabemos o porquê, apesar de eu desconfiar que seja apenas para o nosso próprio deleite.

Tudo bem que depois de um tempo a foto, em toda a sua crueldade, insista em provar que sim, saímos com aquilos – o ex-namorado e o vestido. Pior ainda se tiver sido ao mesmo tempo. Um combo de mau gosto! Que pesadelo...

 Mas, no final das contas, acho que ex-namorado é ainda pior do que vestido.

Vestido pode ser reformado, apertado, doado, vendido ao brechó ou guardado no fundo do armário até que a moda volte... E, acreditem, isso sempre acontece! Aí, nos arrependemos de termos nos desfeito de tal ou qual vestido enquanto corremos para o shopping para comprar a versão atual e caríssima dos antigos modelitos.

Por isso, um conselho, queridas, enquanto houver espaço nos armários, guardem todos os seus vestidos favoritos!

Já ex-namorado não teve conserto nem se adaptou enquanto era namorado e, por isso mesmo, virou ex. Também não podemos empurrá-lo para as amigas – verdade?! – e, muitas vezes, por mais que tentemos, não conseguimos convencer as inimigas a cobiçá-lo – uma pena...

Atenção: não recomendo guardar ex-namorado no fundo do armário. Mesmo que a moda volte – e, acreditem, esse revival nem sempre é prazeroso – nenhum ex-namorado vale a denúncia de crime de cárcere privado, tá?

Além do mais, depois de um tempo, ao olharmos a foto, ainda teremos o consolo – ou a desculpa – de que o vestido estava no auge da moda, enquanto o então namorado foi um erro mesmo!

Viram no quê que dá chegar cedo para a sessão de cinema?

Maria Paula 

Outono de '42


Desde muito, ela pressentia um momento decisivo. Uma estranha sensação... estava incerta em relação a Casablanca. Na rua estreita, caminhava a passos largos em direção a Conferência enquanto se questionava: – E por que não...? Nos anos de guerra as circunstâncias só haviam preparado ciladas. Mergulhada em um mar de enigmas, Ilsa Lund buscava um porto seguro em sua consciência. Foi quando avistou na esquina três cães de caça. Em princípio parecera um sinal de mau agouro... uma advertência talvez. Muda de direção, apressa o passo rumando então para o Rick’s Café Americain, a casa noturna onde estaria seu marido, Victor Lazlo – o líder da resistência tcheca. Haviam marcado inicialmente o encontro na Conferência, entretanto o destino lhe reservara surpresas.

Na sala principal Ilsa vislumbra Sam sentado ao piano. Por frações de segundo uma idéia lhe assalta o espírito. – Rick Blaine estaria em Casablanca...?  Resoluta se dirige ao piano e senta-se ao lado de Sam.
- Sam, toque para mim... pelos velhos tempos
Uma surpresa para Sam que responde atônito:
- Mas... tocar o que...? ...Madame Ilsa.
- Toque Sam, toque ‘As times goes by’.
- Desculpe, não me lembro mais... estou um pouco enferrujado.
- Eu cantarolo... “Da-dy-da-dy-da-dum, da-dy-da-dee-da-dum”.
Sem alternativa Sam vê-se obrigado a tocar, e mal havia iniciado, surge Rick Blaine vindo do salão de jogo. Rapidamente se dirige para o piano.
- Sam, eu pensei que havia dito para não tocar mais essa música.
Nesse exato instante percebe Ilsa Lund. A expressão suave e o lindo sorriso eram inesquecíveis. O eterno encanto deixa Rick desconcertado.
- Ilsa...!, o que faz em Casablanca???
- Estou de passagem a caminho da Europa; viajo com Victor Lazlo. Se eu soubesse não passaria em seu bar, mas três cães me forçaram uma mudança de direção.
- Ahh... não...! São os cachorros do Ondjaki... ele insiste em colocar esses cães na estória.
- Você está me falando de Ondjaki... o escritor angolano? Rick...! atualmente ele é um dos homens mais procurados pela Gestapo. Por um acaso ele se encontra em Casablanca???
- É... e por outro incrível acaso se encontra exatamente nesse bar... viaja incógnito com um passaporte argentino e a identidade de Julio Cortázar.

Sentado ao balcão do bar, perto do capitão Louis Renault, Ondjaki tomava vinho como quem degusta uma iguaria. Inabalável diante da ameaça, não perdera o estilo. Com os cabelos longos e soltos, trajava uma camisa do Boca Juniors e tinha um bandoneón a tiracolo. Um perfeito argentino – o disfarce era notável.
- Mas Rick... porque argentino...?
- Você deve saber – os argentinos se mantiveram fora dessa guerra suja... e além do mais, como autêntico portenho, em jogadas de perigo Ondjaki entra logo de carrinho e nas divididas chega batendo e chuta depois... isso tudo sem falar na catimba.
- E quanto a nós Rick...?, o que nos reserva...?
- Nós sempre teremos Paris...
Há uma troca significativa de olhares... um silêncio...  um afago de mãos... por instantes ameaçam um beijo... e recuam. 
- Rick, aquele nosso último encontro não me sai da memória. Foi o dia em que os alemães marcharam em Paris.
- Não é fácil esquecer, estávamos no ‘La Belle Aurore’... o clima instável, o tempo nublado... toda Paris estava de cinza e você vestia azul.

Nesse momento Victor chegou; Ilsa vai ao seu encontro. Sem demonstrar emoção, Rick sente as dores da paixão. A chama do velho amor, ainda e sempre continua acesa como nunca poderia supor. Foi uma das ocasiões em que uma dose dupla de whiskey parece ser a melhor alternativa... senão a única. No bar Rick toma seu whiskey em um gole enquanto fitava o balcão com a fisionomia estática... como quem olha para um passado. Imagens e lembranças passavam por sua mente... refletia e ponderava consigo próprio: – De todos os bares em todas as cidades e países do mundo ela escolhe justamente o meu... Aproxima-se de Ondjaki em busca de um ouvido amigo... e uma razão para o inexplicável.
- Imagine a ironia... eu vim para Casablanca por causa das águas.
- Águas??? Mas que águas? Rick, nós estamos em um deserto...!
- Devo ter sido mal informado... e agora estou envolvido demais.
- Mas, camarada Rick, tu não preferes que a Europa seja assim...? ...livre?
- Não se trata disso. Eu falo de sentimentos... e agora preciso ouvir o poeta.
 Placidamente Ondjaki sorve o último gole de vinho e fala com vagar:
- Que o amor é rosa e cacto e espinho, e eu sou prosa e pranto e vinho.

Era um poema lateral aos sentidos. Com as ressonantes palavras do poeta, Rick decide servir outro copo de igual calibre quando o inesperado acontece! Subitamente o major Strasser e um grupo de oficiais da Gestapo entram de forma ruidosa, festiva e se apossam do piano como se fora uma Blitzkrieg. Comemoram e cantam em altos brados hinos do ‘Terceiro Reich’. Prontamente Rick percebe a situação. Sobe ao primeiro andar onde vai ter com Victor Lazlo – afinal Ondjaki, sendo o homem mais procurado pela Gestapo no norte da África, corria sério perigo. Victor toma a iniciativa, desce e se dirige para frente da orquestra. Com destemida audácia comanda a execução da Marselhesa. O hino inflama...!, e todos cantam emocionados. O embate com os alemães e o ousado desafio da início a um tumulto geral. A policia intervêm e a confusão generalizada é a oportunidade para Ondjaki se esgueirar pelo bar em busca de saída. O comandante da polícia, o capitão Louis Renault, inesperadamente o pega pelo braço e conduz a uma desconhecida saída lateral.
- Capitão, é ótimo saber que estamos na mesma luta. VIVE LA FRANCE! 
- VIVE LA FRANCE!, responde o capitão      
- Louis, eu sinto que isso pode ser o início de uma bela amizade.
Ondjaki é tragado pela densa neblina da noite enquanto observado com olhar distante pelo capitão Louis.
...ao longe se ouvia o latido dos cães...
      
Richard

Clique no poster e veja uma das cenas mais emocionantes que o cinema já produziu.

A bicicleta azul e o sonho

Nunca gostei do Natal. Nos dias que antecediam a sua chegada eu mergulhava numa noite negra e não compartilhava do tal “espírito natalino” que envolvia a todos. Era um período em que meu lado mais sombrio assumia o comando, deixando aflorar toda minha revolta pela vida que levávamos. Nessa época, eu via meus amigos ganharem os presentes que haviam pedido ao Papai Noel. Ganhavam porque haviam merecido, diziam.  Em nossa casa não havia merecimento que garantisse a visita do “Bom Velhinho”. Meu pai estava desempregado há muito tempo e o que minha mãe ganhava só garantia o essencial para a sobrevivência da família de cinco filhos. Eu culpava meu pai por seu ócio e pelo seu vício e por todas as mazelas que resultaram de suas péssimas escolhas. Não sei o que acontecia comigo naqueles dias, mas eu ia na contramão do mundo. Enquanto todos deixavam aflorar seus melhores sentimentos, sendo generosos, distribuindo afeto e tolerância, eu me transformava num ser sombrio. Juntava a minha dor de menina que sofria com as constantes agressões físicas do pai às dores de todas as outras meninas do mundo. Eu me tornava demasiado pesada até mesmo para mim.  Detestava as canções de natal e delas fazia versões que se assemelhavam a hinos satânicos.  Hoje, sei que isso era uma maneira criativa de lidar com a dor, mas naquela época, eu acreditava que estava enlouquecendo.

Aconteceu de aquele ser um Natal diferente. Naquele ano ganhamos uma bicicleta. Devido aos parcos recursos da família a bicicleta era um presente dividido com meu irmão. Acordamos naquela manhã e encontramos a bicicleta na sala. Ela era azul. A bicicleta mais bonita que eu já vi na vida. Azul perolado, alguém disse. Para mim era azul estrelado. Aquelas pequenas partículas prateadas que se misturavam à tinta azul pareciam com o céu no início da noite. O azul profundo salpicado de estrelas. Era uma bicicleta pintada de Via Láctea, eu disse. Era linda! Meu irmão tinha estampado no rosto um sorriso como eu nunca vira. Não que ele fosse um menino triste. Apesar de ter uma saúde delicada, ele era o menino mais alegre que eu conhecera. Ao vê-lo assim tão feliz senti que não poderia dividir com ele o presente. Era como subtrair sua felicidade tirando dele o privilégio de possuir algo na vida que pudesse dizer que era apenas seu. Em nossa casa tudo era dividido: as roupas, os livros, os risos, as dores. Nada era exclusivo.  Porém, esse Natal não foi diferente apenas porque ganhamos a bicicleta. O que tornou aquele dia realmente especial foi o que aconteceu mais tarde. Depois do almoço, como em todos os anos, as crianças da vizinhança foram para a rua brincar com seus novos presentes. Pela primeira em vez em anos, nós também tínhamos brinquedos novos para mostrar. Meu irmão estava lá, como um cavaleiro, montado no seu corcel de aço azul, trotando pela rua.  Eu o observava da calçada.  Nossa mãe veio para perto de mim e, de repente, começou a me contar uma história. Disse que sempre quis aprender a andar de bicicleta, mas que seu pai nunca deixara. Meu avô era um homem conservador, muito rígido em seus princípios. Suas maneiras à mesa e o modo como se vestia e falava refletiam sua personalidade. Ninguém ousaria desafiá-lo. Para ele, bicicleta era coisa para meninos. Moças estudavam música e aprendiam a bordar e a costurar. Minha mãe não ousou contrariá-lo. Aprendeu a tocar piano e harpa, mas nunca conseguiu bordar ou costurar alguma coisa que valesse a pena. Assim, durante anos, carregou a frustração de não saber andar de bicicleta.

Eu ouvi minha mãe contar aquela história sem interrompê-la. Eu sabia muito pouca coisa sobre quem ela era antes de ser minha mãe. Sabia que tivera uma vida boa, que foi normalista, que quando casou com meu pai levou para casa vários baús cheios de vestidos e sapatos e que era a moça mais bonita do lugar. Ela vinha de uma família estável, de um mundo onde imperava a normalidade. Seus pais eram pessoas confiáveis e respeitados por todos. Mas, desde muito cedo eu percebi que toda essa estabilidade não fora suficiente para prepará-la para os anos de dor e desespero que ela viveria ao lado de nosso pai. Ela sempre foi para mim uma mulher frágil, que se comportava muitas vezes como nossa irmã, incapaz de enfrentar o marido para defender um filho, tamanho era o medo que tinha dele. Nos momentos mais difíceis parecia tão desamparada quanto nós.

Enquanto ouvia seu relato um pensamento me ocorreu. Chamei meu irmão e contei-lhe a história que acabara de ouvir. Ele, com a cumplicidade que sempre nos ligara, entendeu minha intenção. Falamos para nossa mãe que iríamos ensiná-la a andar de bicicleta. Ela riu e duvidou que conseguisse aprender, que andar numa bicicleta era fácil quando ainda se é uma menina, mas agora era algo impossível. Insistimos para que ela tentasse. Ela relutou por um tempo, mas não conseguiu resistir ao apelo de seu sonho e aos nossos pedidos insistentes, quase uma súplica. Muito desajeitada, sentou no selim da bicicleta e segurou no guidão. Meu irmão e eu seguíamos um de cada lado, assegurando o equilíbrio da bicicleta e protegendo-a. Ela parecia uma menina assustada e pedia para que não soltássemos. Nós sorriamos e dizíamos que ela estava indo muito bem. Era muito estranha aquela inversão de papéis. Fazíamos com ela o que ela não conseguia fazer por nós. Não sei quanto tempo ficamos assim dando voltas pela rua, diante do olhar divertido dos vizinhos. Nós também nos divertíamos com aquilo tudo, mas sabíamos o quanto era sério o que estávamos testemunhando naquele dia. Num determinado momento, meu irmão e eu concordamos que ela já podia se arriscar a pedalar sozinha. Nossa mãe ria de um jeito engraçado, misturando alegria e medo, mas concordou em tentar. Contamos até três e soltamos a bicicleta. Foi um momento incrível: ela pedalava desajeitada, mas não caiu. Manteve a bicicleta e o orgulho de pé. As pessoas entusiasmadas gritavam e aplaudiam. Ela realizava seu sonho. Um sonho simples que havia se transformado em algo mágico para meu irmão e eu. Andar de bicicleta, essa coisa tão banal, tão prosaica para alguns, transformou-se em poesia e felicidade num inesquecível dia de Natal.

Nane

O Craque Desequilibra

O tiro saiu certeiro. “Gol”, sussurrou Miro para ninguém. Curioso seu impulso de não querer ser ouvido, estando apenas ele e o recentíssimo defunto, tanto mais quanto quebrado o silêncio já havia sido pelo estampido de seu trinta e oito ecoando naquele galpão abandonado. Talvez fosse vergonha. Pensar em futebol ao tirar a vida de alguém parecia desrespeitoso. Ainda que matar possa não ser considerado propriamente nobre, mas matar era ofício. E Miro era um profissional. Isso se via no buraco aberto no peito do infeliz ali estirado. Praticamente no coração. Fazer igual não era para qualquer um.

Quase dez minutos e Miro já devia estar bem longe dali, mas o desenho que a poça de sangue ia fazendo no chão o entretinha. Quase o hipnotizava. Muito, muito sangue. Sangue... parecia já ouvir a multidão ao seu redor gritando “sangue, sangue!”, e o lamaçal vermelho a seus pés tingia agora todo o Maracanã, misturado a milhares de camisas encarnadas e ao tremular de véus gigantescos trazendo a insígnia do América Football Club, e jogadores comemoravam delirantemente, junto com a torcida, uma vitória apoteótica. Cerrou o punho da mão que não segurava o revólver. Quis gritar um palavrão, mas virou e foi embora. Desde a classificação para a final do campeonato que almoçava e jantava América. Porém, até então não havia se dado conta de estar tão tomado, tão vencido em pensamento. Logo ele, que era todo gatilho e obstinação na hora de fazer os serviços, perdeu-se em veleidades futebolísticas. Sempre acreditou não gostar de futebol. Mas a verdade hibernada acordava agora, mais de vinte anos depois do seu time voltar a disputar uma final. De fato, não era de futebol que gostava. Era do América. Porque ao contrário do que o mundo crê, futebol não é jogo, nem bola ou gol. Futebol é a auto-afirmação do ser humano e nada mais. Ainda que perante todo o submundo da Baixada Fluminense Miro fosse tido como o melhor naquilo que fazia, faltava-lhe algo. Que não viria da profissão, da conquista da mulher impossível ou da loteria. O Olimpo da natureza humana só o futebol é capaz de conceder.

Sabia de antemão que haveria mais um serviço para aquela semana. Geralmente as ordens vinham a varejo, chegando somente após a última missão terminada. Mas os tais deuses do futebol certamente intervieram, fazendo com que nenhum desmando de última hora rondasse o seu domingo de Maracanã. Pôde planejar seus afazeres de modo que estivesse livre para a arquibancada de América versus Botafogo.

A bola da vez era Deomir. Morava no Engenho Novo, trabalhava aos sábados, ia de trem. Tinha cinqüenta e nove anos, vivia sozinho, enfim, presa fácil. Na estação do Engenho Novo, Miro esperava o desembarque da vítima há mais de uma hora. Tempo em que o time do América dera cerca de quarenta voltas olímpicas no vasto gramado de sua cabeça, circundando o campo qual ponteiros de relógio que avançavam sem fazer a hora passar. Centenas de pessoas já haviam saído da estação, menos Deomir. Teria certeza? Não deixara o alvo escapar durante os fantásticos lances da final que sua mente teimava em exibir de véspera? Não alguém de seu gabarito, pensou ao enxugar a testa. Uma nova leva de pessoas surgia. Olhava tenso a aglomeração quando, por um segundo, gelou. Alguém pareceu familiar. Parou, aprumou a vista e comprovou: sim, finalmente, era Deomir! Porém, um Deomir imponderável, inconcebível à existência. Em carne e osso, lá estava ele. Deomir, dentro de uma esplendorosa camisa do América.

Seguir a presa até em casa foi penoso para Miro, cuja boca não fechava mais. Até gaguejou no momento de surpreender Deomir à porta. Com a arma, ordenou silêncio, fingiu firmeza, mandou que entrasse. Mas ao pisar na sala, o bravo matador quis chorar. Um nó na garganta que não sentiu por nenhuma das vinte e sete vidas que tirou. Pôsteres, souvenirs, almofadas vermelhas ostentando escudos de crochê, a casa de Deomir era um verdadeiro relicário do América. As pernas de Miro falsearam. Basbaque, sentiu o morador suplicar qualquer coisa a seu lado, mas estava surdo. Amarrou e amordaçou Deomir, mecanicamente, sem encará-lo. Compartilhava com este cada frustração no futebol. Seria capaz de detalhar as tantas vezes que o morador humilhou-se por aquela camisa rubra. Definitivamente, o que seu peito dizia não combinava nada com a tarefa que precisava realizar. A arma nunca lhe pesou tanto. Abandonou Deomir. Era véspera do jogo, mas foi direto ao estádio. Passou a madrugada diante do portão principal, com tudo o que havia de vermelho em Deomir a pesar-lhe a cabeça. Foi o primeiro a entrar na Maracanã, o primeiro a sentar-se e talvez o último a notar a arquibancada lotada a seu redor. Acalentara aquele momento por anos, mas agora desperdiçava-o. Perdia-o no vácuo aberto pelo conflito de suas próprias emoções. Assustou-se quando a massa levantou-se de uma só vez a seu lado. Gol! Uma alegria nuclear. Choros, berros e abraços. Gol do América! “Gol”, sussurrou Miro para ninguém. Levantou-se, não pelo furor, mas pela ânsia de sumir. Pulou cadeiras, desvencilhou-se de milhares de corpos em êxtase, sem saber se estava feliz ou não. Queria pegar o trem e chegar até Deomir. Como pôde não ter, ao menos, deixado a televisão ligada para Deomir? A culpa o destruía. Mais ainda ao chegar à casa do pobre diabo e ver o corpo atado, agora frio e imóvel. Talvez por enfarte, pela agonia fulminante de ouvir gritos de gol sem saber de quem, por uma espera angustiante e infinita que acabara não dando em nada, Deomir estava morto. Tão sem vida quanto Miro naquele exato instante.

Leo João