O REBOLATION DE CARNAVAL DO LOBO MAU

REBOLATION É BOM-BOM, REBOLATION É BOM-BOM-BOM.
A segregação é muito nítida, é visual, é corporal, ela te atropela. Não há como não ficar constrangido dentro de um bloco de gente branca, com gente cinza acorrentada e de fora a pobreza negra com olhos esfomeados. E lá vai meu celular na pipoca. Justiça social é isso aí! Dou maior apoio! E todo momento os homens e mulheres de cinza me pedem um real, pois a Ivete só irá lhes pagar na quarta de cinzas. Pedem cerveja também, distribuo renda por intermédio de latinhas de cerva aos trabalhadores-carnavalescos.

CHAPEUZINHO PRA ONDE VOCÊ VAI, DIZ AÍ MENINA QUE EU VOU ATRÁS.
Bloco em Salvador é para pegar, e pegar significa dar uns beijos e partir pra outra. “Como vai você? Qual é seu nome mesmo? É, são jatos de energia retilíneos emitidos e eu curto isso pacas! É um pouco assustador não é?”. Isso diria Arnaldo Baptista, mas ele, como é Loki, pode curtir à vontade. Eu lá, sei lá! E tudo isso na força física, porque senão o tsunami (a massa pulante na frente do trio) passa por cima. Isso quando o próprio trio já não é o próprio tsunami, e vem com tudo ao ritmo da alegria compulsiva. E levo porrada de polícia, levo de pipoqueiro, levo de cordeiro, levo de mulher também.

COMIGO É NA BASE DO BEIJO, COMIGO É BASE DO AMOR, COMIGO NÃO TEM DISSE-ME-DISSE, NÃO TEM CHOVE NÃO MOLHA, DESSE JEITO QUE SOU.
Ao final, vamos as contas! Quantas mulheres eu peguei mesmo? Eram barangas ou bonitas? Será que lembro o nome ou a cara de alguma? Mas, na boa, peguei alguma mesmo? Não importa, alegria, alegria, É TUDO OU NADA! É AGORA OU NUNCA! HISTERIA COLETIVA! ALEGRIA, ALEGRIA!

TUM TÁ TÁ... TUM TUM TÁ RÁ RÁ... NO BALANÇO DO CHICLETE, CHICLETEIRO VAI DANÇAR...
Ah, os homens cinza! Os homens cinza são negros, mas chamo de cinza, pois a camisa é dessa cor (para diferenciar entre os brancos de dentro e os negros de fora). Eles vivem grudados em uma corda, para segregar a branquelada rica do sul com a massa pobre nordestina. Não têm carteira assinada, levam porrada de quem está de dentro e quem está de fora, têm direito a duas águas quentes (alegaram não ter como servir gelada, mas eu bebi cerveja gelada o tempo inteiro) e um pão-de-queijo (não, não estamos em Minas, mas na Bahia).

ELA ME DEU O VALE-NIGHT, Ô, Ô, Ô, EU PRECISEI DO VALE NIGHT, Ô, Ô, Ô,  EU ANDAVA TODO ESTRESSADO, AGORA A COISA MUDOU.
Peraí, axé é música? Pular é dançar? Peraí, como saio do bloco? O quê, não pode sair, tem que esperar acabar? Mas daqui onde estou não ouço o trio (Graças a Deus!), parece um cortejo fúnebre de foliões zumbis de abadá e não posso atravessar a corda dos homens cinza que separam os homens brancos da propaganda de banco e cerveja? E para fazer xixi, como é que é? O quê, dar dez reais para o segurança te levar para fazer no barranco? Ih, já que não tem como sair, vamos surfar, que lá vem o tsunami de novo!

EU SOU O LOBO MAU, AU, AU, EU SOU O LOBO MAU, AU, AU, EU SOU O LOBO MAU, HAU, HAU,  EU SOU O LOBO MAU, HAU, HAU, E O QUE VOCÊ VAI FAZER, AHHHHHH, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER, VOU TE COMER...

Rodrigo

Ciber Concerto

Para ler ao som de Concerto de Brandenburg nº 2 de Johann Sebastian Bach
O maestro falou para a audiência:  - Podem fotografar.  Também podem filmar.  Este é um ciber concerto.  Uma novidade que queremos adotar. Mas, por favor, deixem o celular no vibra call.  Enviem as fotos para o nosso blog!

Assim foi anunciado aquele concerto da jovem orquestra.  Jovem maestro e jovens músicos, que contrastavam com a música, com o local e com a platéia. 

Não, não é verdade que a música fosse velha.  Nem mesmo antiga.  Era um Bach. Sempre jovem e contemporâneo. Uma música atemporal.  Sem prazo de validade para sua eterna melodia.

O local era antigo, mas não velho.  O Outeiro da Glória, que naquele sufocante domingo de março que não inspirava religiosidade alguma. Pelo contrário; transpirava, sufocava a platéia num ar viciado que parecia lembrar um ambiente de pecados envoltos num cheiro de incenso gasto e ácido.  Nada era reconfortante  naquele templo. Só havia uma razão para alguém estar lá: três dos belos concertos de Brandemburgo.

A platéia, essa sim, era velha.  Em sua maioria, senhorinhas já curvas e murchas.  Pouco adiantava o  ventinho fraco de seus leques que balançavam de um lado para o outro. Vapt-vapt... O calor era insuportável, mas aquelas velhinhas suportavam tudo.  Estavam excitadas com a novidade do ciber concerto com música de Bach.

Quase na hora de começar o evento; minutos depois da fala do maestro surgem os retardatários que enchem a  igreja com um sopro de juventude.  Moças e rapazes que sentaram no chão sem cerimônia; num informalismo de gente que tem vinte e poucos anos.  Apareceram também uns poucos casais que ficaram na porta com suas crianças.  Não havia mais lugar.

O jovem maestro e sua jovem orquestra iniciaram o concerto número três. Havia tanta expectativa na platéia, mas ela logo se transformou num educado silêncio; tolerante frente a um insistente violino desafinado que ofuscava a música de Bach e que lembrava o sacrifício de todos estarem lá.  Num domingo, num final de tarde infernal, numa temperatura de quarenta graus.

Mas era uma orquestra jovem.  Esforçada.  Um jovem maestro. Entusiasmado.  Apenas curtiam aquele momento do talvez primeiro concerto de suas vidas. Os músicos mais experientes tentavam em vão se impor, mas o violino desafinado queria ser a estrela do evento.

Quando todos: maestro, músicos, platéia já estavam conformados e iam desistir de vez do violino inconveniente, surge uma menininha de uns três anos, que silenciosamente veio da porta da igreja. Caminhou devagar, passinho por passinho, no meio dos jovens sentados no chão e levantou um celular.  Olhou para trás, sorriu para os pais. Fez um gesto de aprovação com a cabecinha e tirou um retrato do violinista e seu torturante violino. De repente, o violinista parou de desafinar.  Tocou bem.  Parecia mais calmo.  Afinal, já tinha a sua foto.  Era um ciber concerto. A música - só um detalhe.

Clicia

Crua



Arrancou-lhe um pedaço da pele e sorriu, mas lembrou de deixar ali um beijo para sarar logo.
        Nane

A Veneza de cada um

"Cidade italiana... cidade italiana, com seis letras. Começando com V. Cidade italiana, com V". Trovejou e, num susto, Nicinha se lembrou da chuva. A caneta pulou da mão, riscou o sofá. Nicinha falou um palavrão. Ficava nervosa quando chovia. Já havia esquecido o temporal que a castigara o dia inteiro.  "Essa chuva!", pensou num muxoxo. Largou as palavras cruzadas, foi esquentar água para limpar o sofá rabiscado. Mais um trovão. Nicinha já estava alterada. Ficava nervosa quando chovia. Acreditava que sempre fora assim com chuvas e trovões, desde criança. As bolhas d'água começavam a emergir dentro da panela amassada. "Nunca gostei de chuva", mentia para si mesma ao fogão. Era sábado e queria que o telefone tocasse. Pensou em ligar para Luciene, talvez para Fátima. Queria que Júlio ligasse. "Essa chuva!". As bolhas já eram grandes e estouravam histéricas na água quando decidiu apagar o fogo. Da cozinha para a sala eram dois passos. Da sala para o banheiro, mais dois, três passos até pegar a toalhinha branca que queria. Voltou ao sofá, agachou-se, afastou as palavras cruzadas. "Cidade italiana". Molhou a toalhinha na água quente e pôs-se a esfregá-la na tinta azul. A tempestade chiava lá fora e quebrava o silêncio, mas Nicinha não ouvia. Queria abrir a porta para alguém. Queria sair. O telefone não se manifestou. Deus, como ela queria que a chuva parasse. Quando chove as pessoas costumam permanecer onde estão. Por isso todos estão lá e ela aqui. O risco virou uma mancha e ela resolveu desistir, com mais um palavrão. Sentou-se no chão e, sem largar a toalhinha, fitou com angústia a janela molhada. Em meio àquelas centenas de milhares de pingos pôde distinguir Júlio, Luciene e mais um monte de gente que poderia estar tão junta quanto eles naquele instante. Precisava de muitas pessoas ao seu lado o tempo inteiro, nunca soube o porquê. Mais um trovão. Um novo susto, dessa vez, implodindo direto em seu peito, estremecendo-a, forçando-a num tranco a se dar conta do quanto era infeliz. Agora chovia em seus olhos. Sabia que a vida cheia de amigos e bem resolvida que insistia em levar não passava mesmo de um inútil enfeite a escondê-la dos outros e de si mesma. Como um frágil e pobre embrulho de crepom cor de rosa. Nicinha ficava nervosa quando chovia, com medo da água desmanchar seu papel.

      Leonardo João

Dia de Praia


Semana passada, resolvi quebrar minha resistência ao muito suor e sair da frente da mesquinhez do ventilador. Fui à praia com você. Deitada na areia confortável, espiei o mar por quase uma hora, querendo coragem para mergulhar como fazia antigamente.

Hoje, porém, o medo me segura e me frustra, e não só na praia. Eu me escondo na minha fortaleza de auto-proteção, onde minhas boas amigas são as neuroses. Com elas, também me sinto segura. Sem sair do castelo de dentro de mim, vou às lojas e faço compras para tentar preencher o espaço do que não sou ou do que queria ser. Mas, naquele dia, não precisava ser assim.


Você já estava na água quando tomei coragem e... fui! Joguei-me no mar sem garantias nem preocupação. Na água gelada, sentia meu corpo vivo. Ali eu era por inteiro, sem precisar de nada além.

Um minuto de alegria, nem isso, e veio uma onda gigante. Quebrou sobre nós. Dentro daquela tempestade, tive medo que nossas mãos se soltassem. Envolvida naquele barulho uterino, toda a energia fluia sobre mim.

A onda passou. Eu me recobrei e saí correndo da próxima. Na borda do mar, parei, te olhei ainda na água e rimos. Que divertido rir de mim mesma e poder compartilhar isso com você. Respirei fundo, e o ar que entrou pelas minhas narinas chegou a tocar minha alma. O sal purifica.

Você saiu e nos beijamos, iluminados pelo sol que se punha sob o Dois Irmãos. Pena que nada tão bom pode durar para sempre.
Sart

Tom Waits

“...eu já não sinto mais saudades e o Tom Waits rolando no rádio me faz lembrar que já passou...” e assim o último beatnick surgiu no blog. Agora em ‘Hang On St. Christopher’, Tom Waits rola no vídeo.



Muito som, sem clichês, e com a tal da camisa de força sabor azul.

Amok

Uma estrangeira de passagem pelo Rio de Janeiro conhece um brasileiro. Começam a sair. “Nossa, ela é lindíssima”. As saídas ficam cada vez mais frequentes. “Que mulher divertida e romântica”. Ela passa a apresentá-lo como seu namorado. “Sem problemas; afinal, o sexo é maravilhoso”. Ele quer criar coragem para perguntar quando ela partirá de volta à sua terra natal. “Honey, precisamos conversar...” Ela acaba se apoderando de duas gavetas de um armário da casa dele. “Ok. As minhas coisas precisavam mesmo de uma nova arrumação”. Os amigos ficam preocupados. Ele não aparece mais para o futebol, nem para o chope. Para o pôquer ou o whisky. Telefonam, mas ele não atende. Deixam recado e ele não retorna. Então, Pedro resolve ir ao escritório dele para saber o que está acontecendo. “Sei lá... Estamos apaixonados. Só temos vontade de ficar juntos. Deixe de ser invejoso”. Aos poucos, os amigos desistem de procurá-lo.

Meses mais tarde, Pedro está caminhando no calçadão e vê o amigo deitado na areia, ainda segurando a garrafa de vodca da véspera em uma das mãos. Ele se aproxima. Chama o amigo. Sacode-o para acordá-lo. Ofuscado pelo sol o amigo tenta abrir os olhos. Pedro tira o boné e coloca-o na cabeça do amigo antes de ajudá-lo a se sentar. Pedro pega o papel que o amigo segura na outra mão e lê.

“Eu avisei, mas você não acreditou. I’m a little bit of everything all rolled into one. Que I’m a bitch você descobriu quando percebeu que eu o havia afastado de todos os seus amigos. I’m a lover e você sabe muito bem que ninguém o levou a tantos orgasmos quanto eu. I’m an egoísta and a voluntariosa child, but I’m also a mother e aguentei você choramingando os seus problemas. Não vou negar que I’m a sinner; afinal, você me pegou no flagra com o seu vizinho no elevador. But I’m also a saint. Que outra mulher ficaria tanto tempo com um cara tão inseguro e chato como você. I do not feel ashamed quanto ao que fiz. E porque deveria? Desde que o conheci tentei resgatá-lo de sua vidinha sem graça.Yes, I’m your hell sempre que critico você e aponto os seus defeitos. And, of course, I’m your dream – uma mulher lindíssima que adora fazer sexo e sabe levar um homem a sensações extremas de prazer. Só não me peça para encontrar um meio termo, because I’m nothing in between and you know you wouldn’t want it any other way. Do contrário, as Anas e as Marias que ocuparam o seu coração antes não teriam sido substituídas com tanta facilidade. Por isso, dear, você tem duas alternativas: me esqueça ou... Ah, é impossível, so take me as I am”.

O amigo percebe que Pedro está chegando ao final da carta e rouba o papel de suas mãos. Pedro reclama. Quer saber o final da história. O amigo, então, envergonhado, abaixa a cabeça, os olhos se enchem de lágrimas e diz em uma voz abafada que não foi homem o suficiente para o amor de sua vida. Pedro pega a carta de volta.

“This may mean you’ll have to be a stronger man”. Para o desespero do amigo, Pedro bate no seu ombro e conclui “É foda, cara. Além de ficarem com a última palavra, elas sempre acertam”.

Maria Paula

Amok é uma palavra integrada à língua inglesa e proveniente do idioma malaio e significa “in a frenzy to kill; in a violent rage”.

Quero algo


Quero algo que me de-limite.  Moço, vocês tem aí camisa de força sabor azul?
Nane

As Mulheres e os Homens-âncora

O homem-âncora está na moda!

Digo pelo que tenho visto por aí, não sei se é fenômeno recente ou se meu raciocínio é que é lento e só percebi agora a sua existência. Mas que parece ser cada vez mais frequente, isso sim! Chamo de homem-âncora o indivíduo do sexo masculino que tem um relacionamento longo e despretensioso (por sua parte, fique bem claro) com uma mulher e esta fica a esperar que a relação deslanche de uma vez, o que nunca acontece. Esse homem ganha o adjetivo âncora porque, apesar de não pretender algo mais compromissado, prende a mulher e a impede que possa deixar seu barquinho andar por outras paragens. O barquinho - no caso, a própria mulher-, fica rodando em círculos, em volta da âncora, sem conseguir ir para outros portos, que poderiam ser bem mais acolhedores.

Observe-se que esses homens não são do tipo "âncora", mas exercem a função de "âncora". Qualquer macho pode exercer esse papel e acabam exercendo em algum momento de sua vida. Quando estão nessa função em determinado relacionamento, caracterizam-se pela fuga de compromissos, "perdidos" bem dados em finais de semana, celulares desligados, mensagens não respondidas, encontros espaçados e por aí vai. Se no começo do relacionamento vigorava o trio "cinema-jantar-casa ou motel", quando da ancoragem passa ao esquema  "só casa ou motel, com direito a delivery de pizza ou comida chinesa." O máximo indício de ancoragem é quando o homem confessa à mulher que não a merece, que ela é muito boa para ele. É melhor a mulher acreditar, pois esse recado está mais do que claro. Dá para se notar que o homem-âncora não necessariamente é um cafajeste: ele em regra dá os sinais, a mulher é que não quer ou não consegue interpretá-los de forma correta.

Olhando pelo lado do macho, ser âncora traz grandes benefícios. Além da massagem necessária ao ego, em períodos de entressafra é garantida a companhia feminina (e tudo o que isso envolve, ou seja, sexo). Se a âncora impede a moça de buscar outros cais, para o homem a mulher ancorada é um porto seguro, onde se poderá atracar em momentos de tempestade. Outro dia uma dessas mulheres se virou para mim e disse: "mas ele está há dez meses comigo, tem que ter algum sentimento por mim". A isso respondi: "se está contigo há tanto tempo e não a assumiu como namorada, será sentimento ou satisfação que ele busca em você?". Pode crer, é o sexo garantido que está a buscar. Esta mesma ancorada, por sinal, me disse: "pois se não gostasse, não mandava sempre recadinhos carinhosos pelo celular".

Pois aí é que está a grande arma do homem-âncora: a "mijadinha". Na falta de termo melhor, vai este vulgar mesmo. "Mijadinha" seria a marcação de terreno que o homem faz, justamente para se manter na cabeça da mulher e a deixar ancorada. Essa marcação pode ser por um telefonema, um email, uma mensagem no celular. Como diz um amigo, após as últimas invenções eletrônicas tornou-se muito fácil realizar a "mijadinha". Assim, uma mensagem de sms de madrugada, com declarações de saudades, na cabeça da mulher ancorada pode inelutavelmente significar que ele a quer, que agora vai!
É o caso de outra mulher, que uma vez mandou esta: "acho que ele gosta de mim, pois me liga sempre quando está mal, geralmente de madrugada". No que prontamente alertei: "você poderia achar bom se ele estivesse em um momento feliz e lembrasse de você. Agora, lembrar de você em momento ruim, o que significa? Que você é um pouco melhor do que uma má situação? Que você está um nivelzinho só acima da merda que ele se encontra? É isso que faz acreditar que ele te quer?" Desolé, my little anchored girl!

Geralmente esses frágeis relacionamentos são rompidos pelas mulheres, quando se cansam da ancoragem (o que, inexplicavelmente, costuma demorar eras!). Isso porque uma trepada garantida não pode ser dispensada pelo exemplar do sexo masculino! "Há de se garantir a carne para a época das vacas magras!" A resposta do homem-âncora ao rompimento, no entanto, no mais das vezes é resignada, dá razão à mulher, e às vezes ainda pergunta por que ela demorou tanto a se tocar.

Mulheres, larguem suas âncoras e deixem seus barquinhos navegando pelo leito da vida, só assim poderão ter a chance de encontrar portos, uns mais seguros que os outros, outros mais divertidos que os uns.

Alerto, por outro lado, que, apesar de ser raro, tal fenômeno ocorre também com os homens. Mas só com os homens babacas. Juro que só com os homens bem babacas.
Rodrigo

Cavalo de Cartão

Trecho do romance “Nenhum Olhar” do escritor português José Luis Peixoto / Editora Agir. Foi o livro que lançou José Luís Peixoto na literatura portuguesa e no mercado do livro. Ganhou o premio José Saramago e foi traduzido em várias línguas.

“Tive um cavalo de cartão. Nunca te contei, pouco te contei, mas tive um cavalo de cartão. Brincava com ele e era bonito. Gostava muito dele. Tanto. Tanto. Tanto.

Quando meu pai mo trouxe, dentro de um embrulho verdadeiro, e comecei a desatar as guitas, queria abri-lo depressa; quando o vi, as pequenas orelhas levantadas, os olhos brilhantes, parei-me à frente dele. Foi o meu país durante uma semana, acreditas?, aquele cavalo singelo de cartão foi o meu país durante uma semana. Mas num sábado, deixei-o na rua. O meu pai chamou-me para uma coisa, a minha mãe chamou-me para uma coisa e esqueci-me. Acreditas?, esqueci-me do meu cavalo de cartão no quintal, como foi possível?, como não me lembrei?, como é que as pessoas esquecem assim o que prezam?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, como pude dormir?, como pude assentar os lençóis sobre a respiração e dormir?, como pude simplesmente dormir?, esqueci-me do cavalo de cartão no quintal, acreditas? E nessa noite choveu. No domingo de manhã, acordei com um relâmpago espetado no olhar e um trovão a ressoar no peito, o cavalo de cartão?, o meu cavalo de cartão?, corri para o quintal, atravessei a cozinha em cuecas e com a camisa interior, corri e, descalço, entre as poças de água limpa e a terra húmida e as folhas das árvores a segurarem gotas suspensas no ar, no quintal, o cavalo estava onde o deixara. Um monte amorfo de pasta de papel, onde se distinguiam dois olhos tristes de diamante, a tinta desbotada a pintar o chão e as pedras. Ajoelhei-me sobre ele e chorei. Aquela manhã. Chorei. Foi o meu pai que me tirou de lá.

Para ti, para o nosso filho, para mim, quis um cavalo de cartão, sem a chuva.” 

Carnaval

- Olha, olha a beleza da Ala das Cenouras! A grande inovação do carnavalesco Emilinho é o dispositivo que faz com que as folhas cresçam, murcham, caiam e voltem a crescer! É impressionante notar o brilho e a opulência dessas cenouras, que refletem bem o estilo da escola. O que você acha, Norberto?

- Bem, a pesquisa da direção de arte foi realmente muito profunda. Os assitentes do Emilinho descobriram que as cenouras eram cultuadas pelas tribos Guaximim-mirim, onde eram vistas como o deus revelador da sabedoria. Porque para eles não era a cenoura, mas o cenouro. Uma referência à estrutura fálic...

- A reporter Edilana Ramalho está com novidades quentíssimas. Fala, Edilana!

- Bem, amigos da rede Otar! [gritando muito] Estou aqui com os integrantes da escola que fazem tudo funcionar. Sem eles, o que seria...? Não seria nada! Ei, você aí! Me dá uma entrevista aí!

- Craro, senhora! Nosso trabalho é muito árduo, empurrando esses carro aregórico igual a uns condenado! Só a cervejinha salva!

- Vanderson! AAAAANDA!... POOOOORRA! FUDEU!

CRUNCH!!!  CABUM!!!

- Meu Deus! O... Olha Norberto! O carro alegórico perdeu o controle e está desgovernado! Vai bateeeeeeer!! Bateu! Derrubou uma caixa de som sobre o camarote dos jurados! Vamos passar de novo para a Edilana. Edilana? Edilaaaana???

- Enquanto não localizamos a Edil...

- Edilaaaaaanaaaaaaaa!!!

- Enquanto não localizamos a Edilana, notem o desfalque que esse problema não está causando à evolução do desfile. Acho que a bateria deveria mudar o compasso para 5 por 1, porqu...

- Olá Augusto! A gente teve que tirar uns estilhaços de vidro aqui pra continuar... Corre, corre, Gil, filma as destaques! Gente, está pegando fogo no carro alegórico, as destaques estão em pânico; a gente vai correr e tentar alcançar! 
..................................................................................................
..... Ufa! Finalmente! COmo VOcês POdem VEr, HÁ uma GRAnde MOVimentação de bomBEIros ao redor do carro, agora que ele parou. Vamos entrevistar o sargento dos bombeiros...

- Sargento não, eu sou só cabo mesmo...

     Sart

intimidar o poema a ser raiz

era um poema lateral aos sentidos.
ganhava formato ébrio
ao nem ser escrito.
longe dos pensamentos
imitava uma pedra
[aí as palavras drummondeavam].
longe das lógicas
– com tendência vagabunda –
o poema driblava lados avessos
de noites
e animais
[aqui as sílabas manoelizam, barrentas].
mas uma estrela nunca brilha
tão solitária;
encarece-se também de luuandinar,
miar à couto,
esvair-se para guimarães...
era um poema carente de afectar-se
a ramos gracilianos.
assim alcançava
o estatuto
de raiz.
cheirado, emitia brilhos tímidos
– fosse um pirilampo.

ondjaki

O Unicórnio Nu (Vampirizando Leo)

Para ler ao som de ‘Comptine d´un autre ete’ de Yann Tiersen



Desço meu carro pelas curvas da estrada, temeroso da névoa espessa que me envolve. Pela fresta da janela, o vento úmido entra fresco e toca meu rosto. Quero pegar o vento, tocar minha pele. Sinto as rugas da testa e me lembro das causas de cada uma. Um emprego perdido, a morte de um grande amigo, o divórcio.

Minha ex-mulher gostava de fazer bolos. Só cozinhava isso. Todo fim de semana, eu sentia aquele cheiro gostoso; ela tirava o bolo do forno e eu o comia ainda quente, ávido pelo sabor. A massa tinha a textura macia da sua boca, e eu me lembrava disso nas horas enfadonhas do trabalho. Fechava os olhos e sentia seus seios comprimidos sobre meu peito, suas coxas rarefeitas nas minhas mãos. 

Eu suspiro. O tempo pesa. Cada vinco no rosto dói; deve ser o frio ou a saudade. Os outros carros vão longe, vejo pelos faróis vermelhos. São pingos de tinta tristes. Ao meu lado, percebo, um unicórnio corre, desafiando todo o ecossistema do senso comum. Ele me acompanha, mas com o olhar sempre fixo no horizonte branco. 

Como seu correr é belo e leve! Queria ter vivido no ritmo desimpedido do seu trote. Talvez a juventude que perdia a cada dia que tentava ser um homem sério - talvez ela tivesse a alvura desse bicho. Talvez jogando meu terno no lixo, talvez apagando da memória minhas palavras solenes - talvez assim, nu, exposto, entregue, vulnerável, eu pudesse igualar sua pureza.

Resolvo parar o carro no meio-fio. O unicórnio pára também e imediatamente aponta para o chão. A mesma mão que sentiu minhas rugas, eu a passo sobre o lombo do animal. Num movimento seu, a pulseira gasta do meu relógio arrebenta e ele cai. Vou apanhá-la no chão, e sinto a grama molhada como os meus cabelos escorridos quando minha mãe os lavava. Meu coração se encolhe suave no colo das minhas lembranças. Pego o relógio; os ponteiros haviam se soltado.

Sart

ISO

Maria defendia que uma máquina fotográfica bem intencionada era protegida pelo véu da invisibilidade. Carlo detestava seu hábito recém adquirido de tirar fotos de desconhecidos. São partes de mim que reconheço, ela dizia serelepe enquanto clicava tão contente que sua alegria não a deixaria ver o desagrado alheio caso alguém não gostasse de ser flagrado pela lente de um estranho. Já escurecia quando os dois saíram da loja de roupa de cama com travesseiros novos. Maria sacou a câmera da bolsa, Carlo tentou argumentar que a pouca luz não deixaria que as fotos ficassem boas. Maria disse que não tinha problema, resolvia com o iso. Iso? Ele não chegou a perguntar. Tinha aprendido logo nos primeiros meses ao lado dela que quando queria algo, nenhum argumento contrário era suficiente para impedi-la. A noite está tão amarela, ela dizia enquanto tirava uma foto do bueiro. Não era um prazer que Carlo compartilhava, ele se limitava a seguir ao seu lado e a pensar nas coisas a fazer do dia seguinte enquanto Maria seguia vendo coisas que ele não via.

Foi quando Maria pegou no braço de Carlo pedindo-lhe para parar por um instante que ele pôde pressentir o perigo. Como que hipnotizada, Maria tirava uma série de fotos de um homem recostado na parede. Ele vestia um uniforme que poderia ser de um auxiliar de enfermagem ou de um fugitivo do hospício. Carlo não gostou nada do clima sombrio do homem com aquela noite deserta de domingo, pediu à Maria que fossem depressa porque tinha fome para não assumir que estava com medo. Maria continuou clicando o homem enquanto ele fazia alguns movimentos alongando o corpo ao longo da parede escura. Até que o homem levantou a cabeça e fitou-os diretamente. Sem pudor, sem timidez, o homem os encarou com tamanha certeza que seus olhos de lente pareciam absorver mais do que transparecer, mais ainda do que a câmera na mão de Maria. Maria parou de fotografar. O homem fez menção de levantar-se, Carlo segurou o braço de Maria e exigiu que eles fossem embora. Logo o homem deu meia volta e entrou por uma porta no corredor, transformando o medo de Carlo num certo embaraço.

Maria olhava as fotos metida no visor da câmera, Carlo resolveu dar uma espiada para ver o que ela tanto olhava. A foto ficou azul, ele disse surpreso, tudo era tão amarelo naquela noite. Maria sorriu da surpresa dele e atentou para os flocos brancos que voavam ao redor do homem. Carlo ficou confuso, Maria sorriu. Numa hora, ela disse, alguém deve ter jogado restos de um embrulho de presente pela janela porque caíram flocos de isopor. Carlo olhou pro chão desconfiado e confirmou os restos de isopor que se misturavam ao esgoto. Parece neve, ele disse, perdido na diferença entre o que ele tinha visto e a foto que Maria havia tirado. Maria guardou a câmera e se pendurou ao braço de Carlo, achando graça da confusão. Vamos, ela disse, também estou ficando com fome. Carlo que achava já ter fotografado todos os ângulos daquela mulher que há quase dez anos dividia o teto com ele, gostou da novidade recém instaurada. Não entendê-la completamente contanto que ela continuasse lhe mostrando flocos de neve feitos de isopor. Que continuasse pintando noites amareladas com véu azul.


Luanne.

(Conto escrito a partir da proposta de exercício "uma foto")

Um jantar inusitado – em Tokyo

Inusitado vem a ser - esquisito, desconhecido, insólito. O mesmo que: Subuta, Koikoku, Tori no Umani, Tai no Teriyaki. Um jantar inusitado em Tóquio? 
Por favor, inclua-me fora desta. Pode me causar uma hiper qualquer, dessas que andam por aí: Hiperestesia, hiperemia, ou mesmo uma hipergenesia inconveniente. 
Obrigado. Estou bem como estou.

Paulo

Vizinhança III - Vampirizando Sart, Richard, Maria Paula e Elisa

Vida de maníaco sexual em cidade grande é um saco! Nunca passo despercebido. Isso desconcentra! Hoje mesmo vi uma menina me olhando, enquanto eu fazia meus deveres com a garota da vez. E isso sem falar nos índios do mato, que assistem ao meu show como se fossem ao cinema, ou a um show. Deram agora para me imitar com as indígenas, sai cada cena dantesca de dar dó! Não têm o "feeling" para a coisa, acaba sempre em baixaria.

Bom, mas acho que vou acabar me encrencando. Apesar de minhas esquisitices sexuais não serem contra a lei, pois minhas parceiras são maiores de idade (hummm, quase todas, eu acredito) e estão no jogo para valer, creio que alguém pode pensar que estou fazendo algo bem errado. É que arrumei essa garota que topa tudo, genial a moça, mas tem umas taras bem mais estranhas que um vivido sadomasoquista como eu. É que ela adora a ideia de esquartejamento. Assim, passamos em um açougue antes da sessão de prazer e compramos logo um novilho, um cordeiro ou um bicho grandes desses, inteiro. E aí o bicho come! Quer dizer, o bicho que era para ser comido passa a fazer parte do jogo sujo e estranho que a tarada gosta de fazer. O que a gente tem que se sujeitar hoje em dia para um bom sexo, hein? Assim, esse povo todo que fica me bisbilhotando, tanto a menina de frente, quanto os índios, ou o sujeito que ceifa o mato, pode achar que estou comendo e matando gente. Peraí, só comendo, e mesmo com toda a minha esquisitice, no sentido romântico da coisa.

Ih, tocou a campainha! Lá vem a louca! Hoje ela falou que viu uma cena na praia com o James Bond e um vendedor de mate. Já sei o que ela quer, só não sei se eu serei o James Bond e ela o vendedor de mate hoje ou o contrário. Quero ver os apetrechos que ela trouxe, pois no açougue eu já passei hoje mais cedo.

    Rodrigo

Vizinhança II - A Revelação (Vampirizando Sart)

À noite vejo a moça na janela.

Sinto que me espiona. Com as luzes apagadas tem a ingênua ilusão que seu olhar furtivo não é notado. Tão logo percebo paro de ceifar o mato. É um serviço barulhento, reconheço, mas enfim, o que há de se fazer? É a única maneira de construir meu barraco camuflado.  

Por sorte no prédio ao lado mora um maníaco sexual – do tipo sado-masoquista. Adora bater na mulher. O tarado tem requintes fetichistas, embora sua tara predileta seja bater. E bate forte, mas notei que é bem correspondido. Como frisou Nelson Rodrigues –“Toda mulher gosta de apanhar”, e aquela não foge a regra nem um pouco. Geme de prazer a cada tapa e tem orgasmos transcendentes com o estranho ritual.

Aqui do alto do morro, em companhia dos índios do mato, temos uma ótima visão e um novo passatempo. Os índios, não conheciam essas práticas, e meio abestalhados acharam a maior loucura. Alguns ficaram assustados, mas a maioria se esbaldava de tanto rir. O Juruna, no entanto ficou tão entusiasmado resolvendo em seguida fazer a ousada brincadeira com a mulher. Meu Deus, o feitiço virou contra o feiticeiro e como aquele índio apanhou da mulher. Depois do inesperado, nunca mais deu as caras no alto do morro. O pretenso taradinho deve estar encabulado, pois quem presenciou a cena, viu o Juruna apanhar mais que boi-ladrão.

O mais interessante são as fantasias e, com certeza o mais divertido para os índios. O imprevisto é a rotina do tarado. Em certos dias aparece de Batman, em outros de Homem Aranha, às vezes de funcionário público, contudo a fantasia predileta é a de Nosferatu. Ela por sua vez se alterna entre colegial, enfermeira, Santa Terezinha e nos dias de Nosferatu de Bela Adormecida. Apesar de intrigado, nunca consegui descobrir a relação entre Nosferatu e a Bela Adormecida, mas os ritos são rígidos e pré-determinados. Nosferatu com Bela, Homem Aranha com a enfermeira, Batman com a colegial e o funcionário público com Santa Terezinha. Que imaginação...! Eu nunca poderia conceber Santa Terezinha transando com um burocrata do ministério. Devo confessar com certo acanho: a cena me excitou //// cheguei a ter uma ereção.

O ritual sempre segue o mesmo enredo. Primeiro os tradicionais tapas, depois as sugestivas algemas e por fim o chicote – símbolo maior do fetichismo. Quando a encenação atinge o clímax, o sádico arrasta a mulher para a cozinha e copula sobre a bancada da pia, exatamente como Michael Douglas e Glenn Close em ‘Atração Fatal’. É o eterno fascínio por Hollywood, a fábrica de sonhos. O casal, entretanto é bastante criativo e com frequência alterna a bancada com o fogão de seis bocas ou a mesa da cozinha. A essa altura os índios vão ao delírio e os mais entusiasmados chegam a bater palmas. É tocante. Sutilezas e momentos como esses fazem a vida ter sentido. 

A moça da janela, atraída pela algazarra no prédio do lado, fica completamente absorta e me esquece por uns dias. Foi o momento de ceifar o mato e construir o meu barraco. De sua casa a moça curiosa não tem boa visão, e certamente não entende o que se passa. Possivelmente deve imaginar coisas incríveis. Histórias macabras... quem sabe...? Outra livre criação da mente... pode ser.

Depois de certo tempo os rituais maníacos perderam o seu fascínio inicial. As tramas ficaram repetitivas e até mesmo a maioria dos índios perdeu o interesse. Atualmente o que me atrai é ficar no meu barraco, com as luzes apagadas observando a moça da janela. Quanta doçura, e tão diferente do casal bizarro. Debruçada no computador, tenho a impressão que escreve estórias. Devem ser poemas, estórias de amor, relatos engraçados ou até contos de terror. Talvez seja pura fantasia minha; e não canso de admirar. Afinal, o encanto da vida surge em pequenos detalhes. De dia desço e enfrento a faina do trabalho, mas...

...à noite vejo a moça na janela.

Richard 

Vizinhança

Ouço aquele barulho e fico aterrorizada. Chego num cantinho da janela da minha sala, luzes apagadas, e espio a janela do prédio ao lado. Um homem desfere golpes no ar. Sua silhueta macabra lembra a sombra do Nosferatu. Seu braço pesado, que deve segurar um machadinho ensanguentado, despenca, bate com força, e o barulho escorre sinistro pelo ar.

O som é até discreto. Noutras noites, eu ficava vigiando o matagal do morro aqui atrás. Lá no alto, escondidos, moram os índios do mato. De dia, eles costumam descer o morro sorrateiramente para cumprir seus afazeres. Muito suspeito. À noite, só podia, estariam ceifando o mato. Construiriam um barraco camuflado.

Hoje descubro meu engano. O barulho vem do prédio ao lado. Ninguém percebe, só eu, que ali mora um maníaco açougueiro. Ele arrasta corpos até sua cozinha e – valha-me Deus! – os esquarteja.

  Sart

Ponto de Vista

Aqui do calçadão da Praia do Leblon, sentado na minha cadeira e cercado de assistentes e equipamentos, eu observo as pessoas. Preciso escolher uma delas. De preferência uma figura pitoresca. A praia está lotada. Exatamente como eu imaginei. Só para imprimir mais realidade à cena. Um vendedor de mate que caminha pela areia, sob o sol escaldante, parece falar consigo mesmo e chama a minha atenção. Muito mais por causa de sua concentração naquele diálogo silencioso. Observando com mais atenção, percebo que o mulato é bonito e musculoso. O rapaz sua tanto carregando aqueles dois tambores de metal, um em cada ombro, que nem percebe o que está acontecendo ao seu redor. De repente, ele para. O seu olhar voltado para o mar, de onde sai uma mulher deslumbrante, vestindo um biquíni provocante. O acaso nos oferece o timing perfeito e eu aproveito. Todos a postos. Seguindo as minhas instruções, ela fixa o seu olhar no do vendedor de mate, sorri de forma convidativa e, com um andar sensual quase felino, segue em direção à sua barraca. O rapaz, induzido por aquela profissional experiente, muda o seu trajeto para segui-la. Aí, ele avista um estrangeiro com pinta e pose de galã. O vendedor, então, em um inglês rudimentar, cumprimenta o estrangeiro e, gesticulando bastante, oferece a ele um copo de mate. Rapidamente, instruo o estrangeiro a pedir dois copos, apontando para a sua namorada que está chegando. O rapaz vira a cabeça e diz: “Sua namorada? Véri biutiful!”. Aqui do calçadão, informo aos dois para prolongarem a conversa com o vendedor, falando sobre a praia e o calor, usando algumas palavras em português no meio das frases curtas em inglês e muitos gestos; tudo, enfim, para facilitar a compreensão pelo rapaz. Rapidamente, dou o sinal e os vinte membros de uma quadrilha internacional de tráfico de crianças entram no quadro, já atirando. Os figurantes já sabem o que fazer. O estrangeiro, um profissional também experiente, atuando pela terceira vez como o famoso agente 007, antes de partir para uma luta corpo a corpo, saca as armas escondidas na sua barraca. Assumo o lugar de um dos cameramen e filmo a cena de um ângulo inusitado – o seu reflexo nos tambores de metal do vendedor de mate, que, de tão apavorado com o tiroteio, sai correndo sem receber o seu cachê.

       Maria Paula

Era uma segunda chuvosa...

... e ela veio de longe. Chega com enorme bagagem, mas nem uma mala sequer. A bagagem é de uma vida, e na bolsa cheia de memórias há segredos bem guardados. Lembranças deliciosas e temperadas com encantos mantém vivo o passado pouco distante. Com sorrisos eloquentes e contestações sutis se agiganta em seus poemas. São retratos de uma alma revelados em paixões e enredos envolventes. Surpreendem...! Incitam em todos fantasias de amor.

Em lugar de faunos, fadas e anjos deslumbrantes surgem coxos, cegos e acidentados, e todos com a beleza da feiúra. Incríveis histórias de mangueiras, conduítes e percevejos assumindo ares de falos sedutores. Emoções e ilusões, mescladas em coquetel de sonhos, são regadas por rum. Imprevisível e sedutora, a poeta nos convida a viajar. Viagem em devaneios pelo nosso interior.

O pitoresco da estória, no entanto é um padre singular. Aprisionado em seu hábito não é coxo e tampouco feio, imagino até sendo bonito. Entrega a alma a Deus, e logo após é encarcerado na doutrina. Pobre coitado. Ao negar o instinto animal as preces são deveres do ofício e a renúncia o corolário natural. Seus dentes corroídos desvelam uma tristeza, deixando a mostra amores não vividos e desejos reprimidos. Inspira compaixão... e logo brota a indagação. “Mas de que vale a vida sem paixões? De que vale o céu, o mar, o infinito e o transfinito sem o amor carnal?”

Mas, sendo clérigo fica ao largo das paixões mundanas. Aquelas que sentimos e nos arrebatam totalmente. Justamente essas que são nossa pulsão / razão de ser. A poeta ardente não resiste, e lhe dedica um poema. Em uma ode ao fruto proibido, a serpente bíblica revela enfim o desejo oculto – “Ai, meu Deus... como gostaria de morder essa maçã...”

Richard

A Vida Moderna e a Mulher de Branco de Ipanema

Quem frequenta Ipanema, ou lê as crônicas ou a coluna do Joaquim Ferreira dos Santos, mais do que conhece a Mulher de Branco de Ipanema. Ex-mulher de Marcos Valle, que perambula pelas ruas e praia do bairro que lhe dá nome, em altos papos (e às vezes seriíssimas discussões consigo mesma), em trajes esvoaçantes ou biquínis bem pequenos, sempre da mais alva cor.

Algumas novidades, no caso, podem ser notadas no caso da famosa senhora. Além de ter se mudado da esquina da Barão de Jaguaripe com Vinícius de Moraes, a Mulher de Branco não se veste mais de branco, e sim em várias cores e tons que a deixaram (e nossas vidas) um pouco menos coloridas. Será o luto pela mudança? Sabe-se lá.

Mas o que me faz trazer essa personagem real para esse texto foi cena que presenciei há pouco, protagonizada por ela mesma, a (ex) Mulher de Branco. Ela atualmente passa sua aérea vida nas cercanias do Bar Rex. Estava eu caminhando pela Vinícius rumo à praia em uma manhã de sábado, quando de longe já a vejo sentada em um desses bancos altos que estão na moda nos bares cariocas. Mas, reparo, há algo de novo: ela está tagarelando (como sempre), mas agora ao celular! Quando vou chegando mais perto, percebo que não há celular em sua mão. Ela está falando sozinha, como de costume, mas como se segurasse um celular em sua mão, que está, no entanto, vazia.

Parei para pensar: deve ser uma estratégia da pessoa para que não pareça louca, pois poderá falar à vontade, como é de sua personalidade, sem precisar de interlocutor, e ninguém a olhará como uma extraterrena. Afinal, todos falamos ao celular nas ruas e locais públicos. Achei por demais sagaz a estratégia de nossa simpática heroína.

Um par de dias depois sento-me em outro bar, e vejo três pessoas sentadas em uma mesma mesa. Mas nenhuma pessoa ali conversava com as demais: as três falavam ao telefone, com desenvoltura e entusiasmo, como se as outras presentes não estivessem ali.

A cena me levou à seguinte reflexão: nosso mundo, repleto de tecnologia para unir as pessoas, como redes de relacionamento, celulares, emails, pode nos estar afastando das relações face-a-face e, com isso, nos distanciando das outras pessoas (pelo menos gente de verdade). Estamos em nossos orkuts e facebooks da vida escolhendo a nossa melhor foto, selecionando (ou criando) nossos melhores momentos (sorrisos mil em rostos embranquecidos pelos flashes das câmeras), externando ao léu nossos pensamentos, angústias, sensações, acontecimentos. Sem falar no twitter, em que nossas pensatas e considerações são lançadas ao ar, captadas por "seguidores" que talvez não conhecemos, ou, às vezes, até por ninguém. Ao celular, falamos com pessoas que geralmente poderiam estar ao nosso lado, situação que nos permitiria ver suas reações, tocá-las, quem sabe, e com certeza poderíamos senti-las melhor. Mascarar sentimentos e percepções é muito mais difícil quando estamos presentes. No mundo virtual, ser uma pessoa não-real é tarefa simples.

Lembrei-me, então, da (ex) Mulher de Branco de Ipanema. Mudei de ideia quanto minha percepção inicial: de repente ela adotou essa nova estratagema não para não parecer que não esteja falando sozinha. Talvez esteja somente se atualizando, apenas repetindo a forma como as pessoas hoje andam falando sozinhas. Bem capaz que ela já esteja no twitter.

Rodrigo

Vampirizando Giovana Manfredi

Feios. Ela gosta dos feios. Acho que ela tem o mesmo olhar que eu. E a mesma vontade de descobrir os inexplorados tesouros que se escondem por debaixo das imperfeições.

Somos muito espertas, eu e ela – só levamos vantagens. Primeiro: a concorrência é muito menor. Segundo: como fomos nós que descobrimos os secretos tesouros, eles ficam sendo só nossos!

Já namorei gagos, mancos, já conduzi um ceguinho pro motel e meu atual marido tem as pernas mais tortas que o Garrincha. E que não me venham chamar de politicamente incorreta, porque eu sim, eu os amei.

Um desses meus amados era tão feio, mas tão feio, que por ocasião de uma reunião de família aonde eu o levei, um dos meus tios perguntou à minha irmã o que era “aquilo” que estava comigo. E minha irmã piedosa, tentou explicar: é que ele sofreu um acidente de carro, tio, e teve que ser todo reconstituído. E meu tio: Ah, não, minha filha! Acidente não faz aquilo tudo com ninguém não!

Pois é. Mal sabia ele o que tinha sobrado...

 A Giovana, a que gosta dos feios como eu, está em Cuba, passeando na ilha de Fidelito. Morro de inveja! Rum, charutos, salsitas, cubanos! Quando ela voltar vai ter que me contar tudo, cada horrível detalhe, tintim por tintim.

      Zelma

Não presta e não se empresta

Ando abismada. Ultimamente, você tem você se excedido. Resolvi escrever.

Querido, até onde você acha que pode chegar o meu amor?  O meu; que julgo o maior do mundo. Esse amor que nunca pediu nada em troca. Só seu sorriso. Só a alegria de você existir em minha vida.  Amor que tudo perdoou, que escondeu seus defeitos, que justificou seus erros, que fez inimigos para defender você. O que eu deixei de fazer por você? Fiz tudo. Errei por não colocar limites. Dei tudo de mim. Tudo. Perdi noites de sono, a beleza e finalmente todo o meu dinheiro. 

A princípio, julguei que você pedisse emprestados os meus bens e que fosse devolver um dia. Talvez algum respeito ou carinho por mim. Fui cúmplice de sua irresponsabilidade frente à vida. Achava graça de sua futilidade, de seus caprichos. Um dia ele cresce, pensava... Emprestei para você o que eu tinha e não tinha, ou melhor, dei tudo. Porque empréstimo se devolve. E você nada devolveu. Sugou meu salário, minha pensão de viúva, minhas jóias  e até a herança de minha família. Tudo.

Você vivia cheio de projetos malucos e delirantes. Eu não sabia contrariar sua juventude e seus desejos.  E lá foram minhas economias para as suas mãos.  Não havia dinheiro que chegasse.  Era só um empréstimo que você logo me pagaria...  Mas suas mãos voltavam vazias e com mais fome.  Quantas vezes você excedeu o cartão de crédito! Quantas vezes, você deixou de pagar seu aluguel ou se meteu em negócios estranhos! Mas eu abria novamente meu coração, meu amor e minha carteira e logo seu sorriso voltava.  Pensei que um dia você tivesse juízo e que os empréstimos terminassem...

Parece que você não tem jeito mesmo... Outro rolo? Amanhã envio um advogado para Itaboraí. Você se resolve com ele. Essa é a minha ajuda. O meu amor continua o mesmo, sempre a espera de uma boa notícia, de uma esperança. Mas até meu amor amadureceu. Não cede mais a seu sorriso...

Estou mesmo abismada. Dessa vez, você se excedeu... Como você tem coragem de pedir emprestada a única coisa que me protegeu nesses anos todos? Que me protegeu dos males de meu incondicional amor por você... Que esteve sempre a meu lado... Que me falou sobre sua falta de limites. Que me faz caminhar pela vida.  NÃO, meu filho querido. Sou cega por você. Mas há coisas que NÃO se emprestam. Não vou emprestar o meu anjo da guarda. O que aconteceu com o seu?  Ele se cansou de você pela eternidade... E eu e meu anjo da guarda também cansamos. Eu não abandono você. Mas ele, meu anjo, sempre me alertou... Amar você tanto foi minha escolha.  Não foi a dele...

 Clicia