New Orleans, meu amor

O que eu não choro
são as lágrimas que deixei cair na água
meu amor. Meu amor.
Só tinha as duas mãos uma no teu pulso
outra no trompete e tudo.
Tudo e tudo meu amor e o trompete
se escaparam das minhas mãos como um solo de guitarra
vê. Só tinha duas mãos.
Sonha os meus dedos
meu amor as cicratizes de África as minhas duas mãos
tão poucas no eco de uma bateria submersa com os pratos
a boiar na água dos soluços de uma orquestra roubada.
O que não choro são as lágrimas
de uma cidade abaixo do nível desencalhado
aqui. Por medalhas olímpicas nas minhas pernas
em memória de Hitler nem me sobram caixões nem bandeiras
importadas do Iraque.
E agora silêncio.
Silêncio na afinação do piano
assim.
Silêncio para os blues na água em todos os acordes
de uma cidade de onde não saí por causa do crime de roubar
com o meu saxofone sons à pauta de um furacão.
Tomem nota:
roubar sons a um furacão com o meu saxofone arroba ponto com.
O que eu não choro são as lágrimas.
As minhas lágrimas
acima do nível da morte com os meus tambores
a beliscar o ódio abaixo do nível do amor
mesmo quando assalto ourivesarias de ouro escravo
que me foi garimpado e pintado de branco
é também saudade de antes do dilúvio
das velharias da história dos furacões aqui.
Em New Orleans.
Em New Orleans.
E por favor silêncio.
Silêncio e oiçam bem
os sons e os tons das minhas lágrimas que eu não choro
e deixei debaixo da água do rio e do mar
com o meu sax bem erecto a iluminar o céu
e o luar por cima de uma carpete toda negra
mais o meu trompete a rir
e o meu sax
cansados de chorar.
 


Manuel Rui Monteiro
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Tin Roof Blues - Sidney Bechet

Quase morri sem ver o mar

Cuspi, cuspi com força aquele homem. Arremessei o sujeito para longe, para fora de mim sem piedade  Não queria mais um covarde no meu leito. Não costumo ser condescendente com suicidas. Foi assim o meu impulso. Sem pensar. Mas, depois eu entendi sua estória e me arrependi.

Após expulsar o tal homem de minhas entranhas, eu o vi inerte num lugar seguro. Observei que uma mulher se encaminhava em sua direção. Estava aflita; muito angustiada. Gritava: - amor, amor acorda... querido, não morre...

Um homem fardado vinha correndo atrás dela. Olhou para aquela criatura estendida no chão e viu que não estava morta. – Tá vivo, moça! Ele respira! Parece que bateu com a cabeça, mas vai sobreviver... Meus companheiros já vêm ajudar. Está tudo em ordem... Fique calma.

A mulher começou a chorar e fez carinho na testa do homem desfalecido. – Será que vai sobreviver? – Levanta, amor... Acalmou-se um pouco e agradeceu ao homem fardado - Obrigada.  Muito obrigada  Não entendo porque ele fez isso...
- Muito prazer. Sargento Turíbio Sebastião. Já vi que a senhora conhece esse homem. Ele andava deprimido? - Nãaaaaao, respondeu a mulher. Ele estava bem até ontem à noite. Desculpa, meu nome é Cléa. Sou casada com ele.
- D. Cléa, vocês não são daqui, não é? A moça logo respondeu. - Nós somos de Cristalina. Conhece? Uma antiga cidade de mineração de Goiás. Viemos para cá por desejo dele. Andava meio cansado. Quis tirar uns dias de férias.
- Puxa, vieram de longe; disse o homem fardado. Não preferiram visitar o Rio de Janeiro?  Tão pertinho e tão bonito.  Búzios e Cabo Frio são também badalados.

Cléa olhou o sargento e falou. – É, eu preferia Búzios, mas meu marido cismou de ficar aqui.  Ele cisma com cada coisa... O senhor não vai acreditar, mas ele nunca tinha visto o mar. E nem se interessou por isso a vida toda. Não ligava mesmo. Não queria ver o mar. Só que de uns dois anos para cá, sem mais nem menos, passou a colecionar fotos de praias.  Tem até um álbum...
- Que coisa; ter fotos de praia e não querer ver o mar...
– É, sargento, ele só gosta das fotos. É um homem do sertão, de terra firme e não gosta do litoral.
- Desculpa a indiscrição, Dona Cléa?  Por que ele coleciona fotos de praia se não gosta de mar? 
- Acho que é pela beleza. Olha as fotos, compara. Coloca uma perto da outra. Vai para a janela ver melhor.  Separa tudo pela cor do mar.  Verdes e azuis de todos os tons. Imagina o senhor, que ele tem fotos de praias do mundo inteiro. Sei lá o que meu marido procura... . Eu já perguntei, mas ele não diz de jeito nenhum... Cada um coleciona o que quer... Não é?
- É verdade.  Vai ver é só um passatempo...
- Aaaah, uma vez ele disse alguma coisa sobre as fotos. Foi quando decidiu que queria vir para cá de qualquer jeito. Queria ver o mar de Arraial do Cabo. Da cor de  esmeralda cristalina.  Disse que só tinha visto uma coisa mais linda na vida...  Aí me convenceu...
- É Dona Cléa, seu marido sabe das coisas...
- É sargento. Deve ter se lembrado de alguma pedra preciosa lá de Goiás... Quem sabe?

A ambulância chegou. Dois homens fardados bateram continência para o sargento e carregaram o homem ferido numa maca. Todos foram para o hospital.  

E eu fiquei triste e com o arrependimento me corroendo todo. O homem não era covarde e nem suicida.

Um louco. Naquela manhã bem cedinho o tal sujeito veio na minha direção.  Ficou totalmente nu na minha frente. Adentrou sem pudor. Começou a falar alto e de braços abertos como se me abraçasse:  - Miriam; perdoa ter escondido você por tanto tempo, meu amor. Volta; volta; coisa mais linda de minha vida. Vim atrás de seu olhar de esmeralda cristalina...

Clicia