Há uma mulher parada em frente a um portão, com uma das mãos apoiada sobre o porteiro eletrônico, como se aguardasse autorização para entrar no prédio. Na praça em frente, quatro homens estão sentados em bancos de concreto ao redor de uma pequena mesa quadrada também de concreto. Atravesso a rua e me aproximo um pouco. Aí, então, percebo que cada um deles está com o seu celular na mão, mas nenhum deles está falando ao telefone. Jogando, zapeando ou aguardando um telefonema, eles estão apenas fazendo companhia, uns aos outros, em suas respectivas solidões. Vejo, então, mais adiante, uma moça passeando com o seu cachorro. Mas nada acontece e chego ao meu carro que está estacionado do outro lado da praça.
Abro a porta, entro no carro, ligo o motor, mas não o som. É preciso me concentrar na tarefa de observar a rua – seja para dirigir, seja para escrever. Decido, então, fazer o trajeto mais longo até a minha casa, assim há mais o que observar.
Guardadores de carro ainda uniformizados voltando para a casa após um longo dia de trabalho sob o sol escaldante e um calor de 38ºC. Apesar dos corpos curvados de cansaço, os sorrisos em seus rostos chamam a minha atenção. Muitas vezes, a alegria está onde menos esperamos encontrá-la. Sigo o meu trajeto. Sinal fechado. Um táxi está parado na minha frente. Uma família atravessa a rua. O pai, com um gesto de mão e uma indagação silenciosa no rosto, pergunta ao motorista se está livre. Então, com a família parada ali no meio da rua, ele abre a porta do carona e uma das portas de trás do táxi. Sinal aberto. As buzinas atrapalham a minha concentração, mas eu nem tento tirar o meu carro dali. Fico observando, curiosa para saber como o pai e a mãe gordos com os seus quatro filhos, fora o motorista, caberão
E, ao cruzar o meu olhar com a minha própria imagem no espelho do elevador, me surpreendo com o sorriso no meu rosto. Sorriso roubado das alegrias alheias.
Maria Paula
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