Nane
O último dia de Borges
Jade
Eu o conheci numa viagem que fiz a Salvador. Foi num desses feriados que de tão longo parecem férias. Era a minha segunda vez na Bahia. A primeira foi há muito tempo atrás. Nem quero lembrar quando foi. Estou em processo de reabilitação da minha compulsão de viver do passado.
Pois bem, andava eu distraída nas ruas de paralelepípedos encharcados de urina, suor, cerveja e dendê. Eu me perguntava onde estaria o tal cheiro de cravo e canela. Isso deve ser coisa que só poetas e escritores chapados sentem. Meus olhos contemplavam a arquitetura local quando surgiu à minha frente aquilo que, sem dúvida, deveria ser a maior atração turística do local: um homem negro, cabeça raspada, olhos, alto, braços fortes, um impávido colosso. Finalmente, encontrei um jeito de usar isso. E o sorriso? Salve simpatia! E ele ali sorrindo, provavelmente reconhecendo aquela expressão que estava estampada no meu rosto. Já devia estar acostumado com isso. Tive vontade de sair correndo, mas sustentei o olhar e sorri também. Pensa rápido, pensa rápido. Fala com ele. Encontra uma desculpa qualquer para justificar o approach.
- Boa tarde! - Falei sem saber o que diria depois.
- Boa! – Boa? Isso era uma resposta ou um adjetivo pra mim? Não viaja. Fala logo.
- Olha, eu estou doida para dar pra você. Você poderia acolher o que estou sentindo e me levar para algum lugar qualquer onde a gente possa transar pelo resto da vida? – isso era o que eu queria ter dito. Mas, mantive a pose de moça-classe-média-do-rio-janeiro. No lugar disso, grunhi umas palavras: - Onde posso comer por aqui? - Comer! Agora ele já sabe o que eu estou mesmo querendo com ele.
- Depende do que você quer comer. - O desgraçado sabia.
- Bem, quero experimentar algo típico daqui. – Agora abri a porteira mesmo. Vou em frente. – Você me acompanharia? – Disse isso e me senti ridícula e atirada.
- Olha, eu já almocei. Mas, se você me disser onde está hospedada, posso te levar para jantar. O que você acha? – Ele disse isso mesmo ou estou alucinando?
- Como?! – Acho que eu falei isso com um ar de tonta.
- Jantar. Você quer jantar comigo? - O tal sorriso escancarado estava ali para provar que era verdade.
Não pensei duas vezes e já fui passando meu nome, endereço, o celular e tudo que podia garantir que ele me acharia. Nós nos despedimos ali e eu saí flanando pelas ruas da cidade.
À noite, eu me preparava para o que parecia ser a noite mais excitante da minha vida quando o telefone do quarto tocou.
- Senhora, o senhor Jade a aguarda na recepção. – Jade?! Que diabo de nome é esse para um homem?
- Já estou descendo. – Respondi isso ainda surpresa com o nome. Afinal, Jade não é feminino? Que pais são esses que escolhem um nome assim para o filho?
Desci e lá estava ele imaculado, vestido de linho branco. O contraste do branco com sua pele era divino e o sorriso mostrando dentes incríveis. Aquele era, sem dúvida, um conjunto harmonioso.
- Olá! – Disse isso tentando parecer descontraída. – Ele veio e me beijou delicadamente a bochecha. – Achei que ia derreter naquele momento.
- Vou te levar para o lugar mais quente aqui de Salvador.
E existe lugar mais quente do que esse aqui e agora? Pensei e sorri para ele. E quando me dei conta, já estava lá livre e louca, dançando num barracão cheio de gente alegre, com aquele homem lindo. Dançando, suando, beijando e logo implorando para ele me levar pra outro lugar. Acabamos na casa dele. Só lembro que era azul e que um homem nos cumprimentou na calçada. Ali na sua cama ele me ensinou como se faz para ser feliz com um homem daquele. Ele era grande e doce. Cheirava a cravo e canela. Meu Deus! Estou chapada também! No final de tudo, beijou-me de um jeito tão delicado que naquele momento eu aceitaria bem a morte e descansaria em paz. Olhou pra mim e sorriu. Ele tinha os olhos verdes. Lindos olhos de um verde profundo. Sorri também para ele e sussurrei feliz porque tudo ali era perfeito.
- Jade... Jade. Que nome lindo você tem.
Nane
Semba de Agola
No vídeo, ao som do semba de Paulo Flores, alguns aspectos da simpática Luanda, cidade de nosso querido colega escritor; angolano de nascimento e poeta por natureza. Logo no princípio do vídeo pode-se perceber um integrante da vibrante FLAngola, que segundo a imprensa local é a torcida que mais cresce em Luanda.
Um homem que gostava da Audrey Hepburn
Ele gostava da Audrey Hepburn... Assim, Cecília definiu para si mesma aquele sujeito, que a encantou no começo de sua maturidade. Para ela, havia mais do que delicadeza num homem gostar de Audrey. Talvez seu toque másculo e também delicado tenha impregnado Cecília com a deliciosa sensação de ter conhecido algo sedutor, elegante e terno nas sombras do masculino. Sombras sutis num mundo de escuros, de vazios e de luzes fracas.
Por que Cecília tinha voltado a pensar nele depois de tanto tempo? Foi só assistir novamente Bonequinha de Luxo... A lembrança daquele homem parecia invadi-la sem cerimônia. Com uma força que ela preferia não ter revivido.
Ao ouvir a elegante e delicada Audrey cantando Moon River, era evidente que Cecília tinha lembrado daquele homem... Havia tanta fragilidade naquela cena... A personagem deixava de ser uma Bonequinha de Luxo, e no peitoril da janela, surgia uma moça simples, de jeans, de sonhos e de perdas. Ela cantava para o nada, para algo muito terno... Imperceptível. Cecília parecia recordar aquele sujeito que gostava da Audrey Hepburn. Deu um suspiro, quase um gemido. Fechou os olhos. Talvez voltasse a ser uma menina outra vez... Numa uma época em que ele ainda não tinha rosto.
Desde pequena, Cecilia sonhava em encontrar um homem diferente. Que gostasse da Audrey. A sensação de que ele poderia existir era percebida por imagens internas que povoavam sua infância. Imagens sem data, de dentro, de sempre. Inexplicáveis marcas de nascença. Ela tinha nascido assim, com uma parte doce deslocada; que talvez desabrochasse com o toque delicado de um homem que gostasse de Audrey Hepburn... Era tudo uma questão de delicadeza e ao mesmo tempo; uma questão delicada.
Cecília buscou por aquele homem por cantos e desencantos. Buscou... Teve esperança de vê-lo na finura de gestos e no carinho de suaves tipos masculinos. Viu meninos. Olhou também para alguns sujeitos cheios de testosterona com suas ensaiadas elegâncias ou vulgares rudezas. Viu máscaras.
Com o tempo, Cecília resolveu amadurecer e esqueceu a estória de Audrey. Parou de procurar por aquele homem. Deixou-se esconder na penumbra do esquecimento do quão doce seria encontrar-se junto a uma sutil alma masculina. Construiu sua vida.
Percebia-se que Cecília tinha voltado de sua viagem à infância. Abriu os olhos. Sorriu. Endireitou-se na poltrona e recomeçou a assistir o filme. Parecia estar focada em si mesma, mas ainda continuava no passado. Oito anos atrás? Quase certo! Madura e bonita. Elegante, bem vestida, educada. Tratada. Toda uma vida planejada, certa e limpa. Uma estória pavimentada no cinza, na mesmice e na falta de cor.
Pouco se sabe sobre aquela época. Naquele tempo, Cecília foi passar férias num hotel. Desses com uma sala acolhedora onde os hóspedes conversam. Fácil imaginar sua conversa com alguns deles. Uma fala acostumada à formalidade e educação. Um hóspede lembrou que o hotel tinha uma coleção de filmes. Por que não assistirem a um? Boa idéia! Seria difícil decidir qual... Tantos palpites... No meio da confusão, atrás de Cecília, uma voz masculina falou: - A Princesa e o Plebeu. É com Audrey Hepburn e Gregory Peck. É antigo, mas filme com Audrey não fica velho...
Nenhum conhecido de Cecília viu a cena. Mas quem a conhece, sabe que ela não pode resistir à emoção de olhar profundamente para o homem que gostava de Audrey! Ela nunca descreveu como o sujeito era. Pode-se jurar que ele era moreno, maduro, cool e sedutor. Grisalho e com traços de beleza.
O homem só pode ter olhado para ela com interesse. Impossível ser indiferente ao olhar de Cecília. Fácil é imaginar seus olhos cobertos de encantamento. Como se ela acabasse de renascer. Olhos ofuscados por um excesso de luz; incompreensível para ele. Aquela mulher estava renascendo num olhar... Voltou a viver a partir do toque de algo inesperado; delicado e terno.
Pouco se conhece sobre aquele homem que gostava de Audrey Hepburn... Cecília tem evitado esse assunto. Ela apenas contou que o sujeito correspondeu ao seu olhar. Sorriu para ela. Não o viu mais naquele dia, mas acabaram por se reencontrar tempos depois e se envolveram. Ela se envolveu profundamente. Tudo era elegante naquele homem. Tudo a atraia Era um sedutor. Por ele, Cecilia passou a sonhar como uma menina. Uma menina cega.
O homem que gostava de Audrey tratava Cecília com carinho e educação. Não queria se envolver. Disse para ela não se envolver. Já tinha sofrido muito. Aos olhos daquela mulher, ele era delicado, terno, sedutor e melancólico. Sua ternura, delicadeza, sedução e melancolia comoveram Cecília.
Não teve jeito, Cecília se envolvia cada vez mais com o sujeito. E ele começou a se esquivar. Ela não enxergava. Não enxergava…. Ele continuava a tratá-la com suavidade e não rejeitava sua companhia. Aquela mulher já era intima de sua família. Seus filhos, seus netos, sua mãe e irmãos. Todos a conheciam… Até uma empregada antiga.
Mas o homem foi se esquivando, se esquivando. Nasceu sua primeira netinha... A mãe era a filha mais nova do sujeito. Ele, delicado e terno, só tinha olhos para a criança. Cecília tudo compreendia... O movimento da família junto ao bebezinho. A presença e atenção da ex-mulher perto da criança. Que bom, que ela tinha voltado e tentava ser uma boa avó... Ficava feliz porque tudo caminhava bem... Ele merecia. O homem que amava Audrey precisava ser feliz.
Como Cecília tinha classe... Todos diziam para aquele homem... O sujeito, embora esquivo, parecia valorizar a presença equilibrada daquela bela mulher dentro de sua vida. Num gesto de confiança, um dia ele a levou para conhecer o ex-sogro. Uma pessoa simpática que a recebeu como uma amiga e só fez elogios ao bom gosto do ex-genro. Que belo exemplar feminino ele tinha conseguido!
Ela estava nas nuvens... Mas o homem continuava a se esquivar. Isso era incompreensível para ela. Precisava enxergar. Precisava... A empregada do tal sujeito se encarregou disso. Insinuou alguma coisa sobre a ex-mulher e o patrão. E finalmente Cecília começou a enxergar...
Quis esclarecer a situação, sem acreditar porque aquele homem não fora sincero com ela. Dificil imaginar que depois de muito tempo sua ex-mulher ainda mexia com ele. Depois de tanto abandono e sofrimento.
O homem que amava Audrey Hepburn estava feliz. Radiante. Inexplicavelmente feliz. Com algum prazer desconhecido por ela.
- Não Cecilia, eu disse para voce não se envolver comigo, falou, quando ela foi procurá-lo. Eu disse que tinha sofrido. Eu disse que era complicado…
Cecilia arguentou que ele e a ex-mulher estavam separados há muito tempo… O homem, aquele homem na sua felicidade alucinada e irracional disse para ela - Voce não sabe, mas eu terminei meu terceiro casamento por causa daquela mulher… Não ve? Quando aparece algum namorado na vida dela, eu entro. Se eu arrumo alguém que vale a pena, ela volta a aparecer na minha vida… Eu disse que era uma complicação… Saiu. Sem delicadeza, sem ternura e sem suavidade. Deixou Cecilia sozinha.
Nunca mais ela voltou a ver aquele homem. Mas aquela mulher sofreu. E entendeu tudo…A familia, o ex-sogro, a delicadeza, a suavidade, a ternura. Todo jogo de sedução. Foi usada como isca…
De repente, Cecilia interrompeu sua volta ao passado. Não estava mais focada em si mesma. O filme já tinha acabado… Ela caminhou em minha direção. Eu estava sentado e tinha observado aquela mulher o tempo todo enquanto ela via Bonequinha de Luxo.
Cecilia deitou sua cabeça suavemente no meu colo e disse: - Jairo, voce sabe que eu te amo muito. Não sabe? Eu estava emocionado. Afaguei seus cabelos – E voce, querida, já sabe que ele não gostava de Audrey Hepburn…?
Clicia
Um Jantar Inusitado em Tokyo
A saia, de natureza justa, insiste em se ajustar mais ainda às formas injustas da natureza do meu corpo. Não sei se dobro as pernas – direita sobre a esquerda ou o contrário – ou se bato as palmas nas coxas. Tenho medo de desfiar a meia preta que combina com o sapato de salto preto que combina com o cinto preto que não combina em nada com a camisa verde. Ele não vem mais. Ele não vem mais, tenho certeza, apesar de ainda ser dez para as onze e o encontro ter sido marcado – anotado, rastejado, pedido, implorado – para onze. Mãos sobre a mesa, unhas vermelho-sangue-fogueira (são vermelhas as fogueiras?) traduzindo minha impaciência. Plecplecplecplec (indicador-dedomédio-anular-mindinho). Vou irritar o cara da mesa ao lado. Ele não vem mais. Ele não vem mais, são onze, e as onze os metrôs lotam de menininhas de rostos corados e desejos a labaredear-se pelas pernas. Odeio cada uma delas e cada um dos seus vinte anos e cada uma das folhas das odiosas pastas universitárias que elas levam entre seus colos aprumados, seios atrevidos, bicos rosados e empertigados. Odeio. Esses infames rostos sem rugas de sorrisos. Odeio. Odeio esses hormônios que um dia se vão. Odeio. Ele não vem mais. São onze e dez. Faz dez e ele nunca se atrasa. Ele não vem mais. Perdi por dez, perdi de dez, perdi pras dez. A saia tão bem passada, a meia sem nenhum rasgo, os seios em soutien de bojo, a cinta a me apertar as banhas, o culote e a alma, esse colar de pérolas falsas daquela falsa da minha mãe, o batom mil vezes conferido e realinhado. Ele não vem e só me resta o desajuste solitário do meio-fio, o barulho autêntico do salto nos degraus da madrugada do meu prédio de solteiras e o sono meu – só meu, só, só meu, sem o calor de ninguém.
- Moço, dá minha conta?
- Pra já.
- Ué, que tá escrito aqui?
- A sua conta. Dez Iene
- Tenho que pagar em Iene?
- Claro! Estamos em Tokio.
- Puta que pariu! Errei o país.
Giovana
Reflexões ao cair da tarde
A era da incerteza, como foi definido o século XX, decididamente moldou meu pensamento. Flutuando ao sabor das incertezas tenho a impressão que atingimos a era do ‘seja-o-que-Deus-quizer’. Foi tudo muito rápido e a pós-modernidade me assusta... o imprevisto se apresentou como um traço do viver.
No tocante a loucura, a mudança foi radical. Eu me lembro de haver no bairro sempre algum tipo esquisitão, conhecido e evitado por todos. Atualmente ser esquisitão pode ser elegante. Incrível, mas maluquice, (agora classificada como ‘transtorno’), é um novo estilo de ser. Ter transtorno é original e todo mundo quer o seu. A psiquiatria moderna apresenta um espectro detalhado e abrangente de transtornos dos quais é praticamente impossível escapar. A oferta é grande e a demanda enorme. Existe a bulimia, o transtorno de pânico, a obsessão compulsiva, as diversas fobias, enfim, há maluquices para todos os gostos. É irresistível. Um aspecto surreal do consumismo contemporâneo. Tornou-se assunto de conversa em festas e reuniões, onde apresentar um transtorno singular faz enorme sucesso, afinal não existe nada mais vulgar do que uma loucura banal. Ter transtorno exótico é moderno, quase uma ‘griffe’: algo como Louis Vuitton ou Cartier... uma loucura! Antigamente o cara era maluco e pronto.
Semelhante à loucura pós-moderna, nuances caracterizam a nova sexualidade com diversos grupos GLS e sutis diferenças. Muitos saíram do armário e outros entraram de gaiato. Com boa vontade procuro entender os novos padrões, no entanto a recente onda de bissexualidade me deixa intrigado. Uma visão maniqueísta... pode ser... mas antes não havia o meio termo e a nova posição é desconcertante.
E assim por saudosismo, ou talvez por atavismo, conserve hábitos e mitos sexuais. Sofia Loren, Marilyn Monroe, Audrey Hepburn ou mesmo Virginia Lane continuam vivas em minha mente como a quarenta anos; congeladas no tempo. Embora várias estejam mortas, ou completamente diferentes da imagem que preservo, continuam sendo as minhas divas e ponto final. Ocasionalmente, com alguma decepção, descubro no obituário do jornal que aquela atriz maravilhosa – minha fantasia sexual quando garoto – morreu do mal de Parkinson, aos 87 anos em uma clínica da Califórnia. Apesar de previsível, é frustrante... e toda vez me surpreende.
O costume de ler o obituário de jornal transcende a simples leitura: torna-se rotina obrigatória. Tempos atrás uma sessão despercebida, hoje é dos pontos altos do jornal. Uma sessão cheia de surpresas, muitas vezes dolorosas, mas eventualmente divertidas... dependendo do morto do dia. Há dias, e não são raros, em que o obituário está mais interessante que o editorial. Nesses momentos de reflexão forçada pelas circunstâncias, procuro o apoio ou um incentivo com aqueles de minha geração. Do suicídio de Vargas em 1954, que ainda me recordo, ao ataque às Torres Gêmeas em 2001, vivenciamos (como espectadores ou participantes) eventos transformadores da história da humanidade. Vivia-se em um mundo bi-polarizado com o confronto OTAN e Pacto de Varsóvia, e no Brasil partimos da ‘Era JK’, passando pelo ‘Golpe Militar’, o glorioso retorno à democracia em 85, chegando – praticamente ilesos – a ‘Era Lula’. E não faltou o entusiasmo... falta agora a ilusão, a fantasia necessária. Como notou Mario Quintana: “Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”
O olhar para o passado, no entanto me desperta. Diante de tantos desconcertos percebo na mudança uma contingência existencial e na vida um ritual. ...um rito único e espetacular.
Richard
Quase morri sem ver o mar
O cheiro da maresia ainda habita meus sonhos. A camada fina de sal que se acumula sobre a pele curtida de sol ao final do dia. O barulho das ondas batendo na pedra, e voltando. Batendo, e voltando. A alegria que o rodeia.
Acordo com o estrondo. Não é o primeiro da noite, mas o som vem de longe. O cansaço é mais forte. Falta pouco para voltar, se eu conseguir resistir. Para não pensar, me transporto com o pensamento. E me pergunto por que ele, fonte tão rica de inspiração para mim e muitos outros, tenha sido tão pouco explorado pelos impressionistas, com sua cor que está sempre mudando pela luminosidade, por horas verde outras azul, acinzentado e até vermelho; às vezes brilhante como o diamante, ou opaco como lama seca.
Depois de tudo que vi e vivi, retornei como herói, mas não era como eu me sentia por ter permitido que tantos homens bons tenham ficado no campo de batalha. Como herói eu conseguiria trazê-los de volta comigo, para suas famílias, suas casas. Mas não consegui. E apesar de tudo isso, da dor dos últimos dias no hospital, da urgência em salvar e sobreviver, da saudade, da fome e do cansaço, até hoje quando me perguntam o que foi mais difícil para mim nos tempos da guerra, respondo sem relutar: "Quase morri sem ver o mar".
Fernanda
Assinar:
Postagens (Atom)

