James Baldwin


Imagino que uma
das razões do apego
obstinado
que as pessoas
têm pelos seus ódios
é a sensação, que
uma vez o ódio extinto...
serão forçadas a
aceitar a dor.

Eu não escrevo carta

Tia, você quer que eu escreva uma carta? Tem certeza?  My crazy mom disse isso e eu nem acreditei.  Ela disse que não era pra escrever como no MSN porque você não vai entender. Eu é que não entendi nada.  Tia, você é meio velha, mas não é como o vô.  O vô num entende essas coisas de informática. Ele fica um ano no caixa eletrônico. Tadinho. Mas você é professora de matemática, tem que se ligar!  MSN é mais fácil que a fórmula de Baskhara e o Teorema de Pitágoras que você ADORA.

Não fica triste, I LOVE YOU, mas eu não sei escrever carta. É só você raciocinar: todo mundo manda mensagens e fala no celular. Muito mais fácil, tia! Pensa! Então minha mãe falou pra escrever um email direito pra você contando uma coisa boa.  Acho que vou ganhar meu Wii de presente de 15 anos!  Tia Juba vai dar.  É super legal.  Meu pai ficou brabo porque é caro e ele acha que eu pedi.  Ás vezes ele é muito chato. Muito mesmo. Irrita a chatice dele.  Fica implicando.  Tá ficando velho e um saco.

Tia, eu mudei de escola e você tá sabendo.  Até que não é tão ruim.  Só a aula de religião que num dá pra encarar.  Eu estudei numa escola experimental e agora minha cabeça é uma confusão.  A minha turma tem 10 Lucas e um monte de Luiza.  Eu sou a Luiza 7.  BIZARRO, turma por letra.  Tem até umas patricinhas legais.  A Larissa é legal.  Mas vai pra sala cheia de maquiagem.  Estranhão. Tem um gato do meu lado, Luis Bernardo. LINDO. EU AMO ELE. A gente gosta das mesmas coisas. Acho que ele tá a fim da Luiza 4.  A Lu 4 é popular e modelo.  Sacanagem, mas eu vou pro tênis e acabo com a minha picanha. Aí eu grudo nele porque ele toca guitarra e eu me viro no teclado. Legal, né?  Pensamento positivo, tia!

Manda um beijo no tio, na Isa, no Cacaio e no fofo do Smart.
I LOVE YOU
TE AMO  D+
Lulu

...de muito longe...

De longe, de muito longe, em 8 de janeiro de 2010

Zelma:

Encontrei-me aqui com sua tia Aurinha (nós a chamávamos de Guida) e foi ela quem me falou de você.

Vim para cá muito antes dela. Pisei nas dobras do meu hábito, tropecei, e rolei as escadarias do convento. Morri, veja só, com tudo à mostra.

Pior que o meu foi o destino dela. Quando aqui chegou e não encontrou seu noivo, morreu de novo e continua morrendo seguidamente.

Nos intervalos falou-me de você, sobrinha querida que cuidou dela até seus últimos dias e para quem ela deixou todos os seus poucos pertences. Dentre eles uma carta por mim assinada e que era dirigida à Dona Elvira, a mãe da sua tia Aurinha. E é essa carta que me interessa. É essa carta a razão da minha.

De vez em quando olho daqui de cima e vejo você com a carta nas mãos pensando em que destino lhe dar. Pois vou lhe dizer então que a cada vez que esta carta for lida sofrerei inimagináveis castigos. E se ela se tornar pública, então, nem sei o que será de mim! Já não me basta ter morrido com tudo à mostra?...

Rasgue-a. Queime-a. Não a mostre para ninguém. Deus não existe. Mas você pode imaginar que sim. E pelo menos pelo amor que sua tia ainda devota a Ele, dê um fim nela. A Igreja cometeu (e ainda comete) incontáveis e gravíssimos erros. E, salvo os sensacionalismos de quando em vez, eles conseguem ser acobertados ou sequer chegam a se tornar públicos. Por que não o meu?... Tenho a meu favor a ignorância daquela época. Afinal, esta carta completa hoje exatos sessenta e oito anos!

Queime-a. Rasgue-a. Estarei daqui de cima tomando conta de você.
                                                  
Irmã Maria Antonieta
Superiora Geral

Recebi uma carta...

Cara Sart,

Não vou perguntar como vais, até porque não quero ouvir o pior. Não quero ouvir estou muito bem, obrigada, espero que estejas bem também. Porque eu não estou bem, e não queria que estivesses feliz longe de mim. Desde o nosso encontro perto do deserto, tu me cativaste e és responsável por mim. Mas será que foste verdadeira?

Quando tu foste embora, eu realmente chorei, realmente sofri. Resolvi sair pelos bosques e buscar a reflexão e o auto-conhecimento. Cheguei nas franjas do deserto e contemplei, olhando no horizonte, o vazio dentro de mim. O oco na minha alma que anos de fugir de caçadores e caçar galinhas me causou. Mesmo com o calor, me arrepiei. De medo, medo de ter me perdido de mim. Então resolvi voltar, e todas as tardes, às cinco horas, ficava olhando a brisa que vinha espalhar a relva; me fazia lembrar dos teus cabelos. Preparava meu coração desde o meio-dia. Eu sigo ritos e tenho todo o tempo do mundo. Eu valorizo a essência, eu valorizo o que fica e o que os olhos não vêem nem os dedos tocam. Como eu, não há mais raposa na Terra.

E como tu, não há mais em todo o universo. Não és mais uma humana qualquer, nem sou mais a mesma raposa, desde que me cativaste. Ai... volta, Sart!

Hum... que fome... Já é hora do desjejum... faz tempo que comi meu último franguinho.

Com carinho,
Baposa

Carta ao Leo

Rio de Janeiro, fevereiro de 2010

Meu caro amigo Leo,

Uso a palavra amigo reconhecendo a intimidade entre nós. Intimidade inevitável, criada pelas incontáveis músicas minhas que imagino possuir e shows que talvez compareceu. Sei que não estou sendo presunçoso ao dizer isso, pois já li que é meu "fã" – termo que nem gosto, por não distinguir o admirador do fanático, mas foi você mesmo quem o empregou certa vez, não lembro onde. Se for mais fanático do que fã, espero que continue sem se manifestar como tal, ao menos diante de mim, poupando assim o meu constrangimento e a sua biografia. A esta altura deve estar se perguntando se sou eu mesmo que te escrevo e a resposta é: sim. Escrevo para pedir-lhe letras de músicas. Bom, imagino você agora descartando a possibilidade de eu ser eu, pela natureza do pedido, o que vem a ser bastante compreensível. Mas eu sou o dono da voz, de fato, e esta é a verdade, preciso de um letrista. Trocando em miúdos, a questão é que letras de músicas já não me atraem mais. Primeiro, escrever livros consome todo o meu tempo e interesse. Segundo, convivendo com meu genro Carlinhos, deduzi que letra de música, afinal, não é coisa pra se dar importância. Não sonho mais. Acontece é que, ao contrário do que muitos acreditam, não posso abdicar do dinheiro que a música traz. Não sou jogador de futebol com contrato vitalício, embora até mereça, pela minha invencibilidade nos gramados. Se nunca dei um mundial ao Brasil, foi por não ter tido oportunidade. Zico teve. Enfim, voltemos ao assunto. Tenho músicas prontas, material suficiente para dois ou três CDs. Já propus a algumas gravadoras trabalhos instrumentais, mas isto está fora de cogitação. Portanto, eis o negócio da China: você seria uma espécie de ghost composer. Deixo contigo as canções e você faz as letras anonimamente. Eu assino. Você pode achar que eu deveria era chamar meus incontáveis parceiros da MPB, como se fosse lógico. Mas não é. Nenhum toparia. Para fazer tal coisa é preciso um distanciamento que nenhuma amizade permite. Não, não foi contraditório eu usar a palavra amigo lá em cima. Considero você um amigo, porém, não muito próximo. E então, aceita? É um favor que me faz. Mas será um favor remunerado, prometo. Porque sem um trocado ninguém segura esse rojão.

Saudações tricolores,

Francisco

Antonin Artaud




“Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero”.

Antonin Artaud

Um dentista para Shayenne

Dona Madame,

Como não sei qual é a sua graça vo chama a senhora di madame. A madame mi desculpe por iscreve essa carta pra senhora mais eu to com vergonha de falá de boca. A madame é muito educada e respeitosa comigo lá na minha banca e eu tô precisano muito da ajuda da senhora, sabe. Eu já falei da Shayenne pra madame né. Madame eu trabalhei muito. Vendi muita bala pra Shayenne pode colocá o aplique que ela queria no cabelo e ficá muito bunita pro Carnaval. É que agora a Shayenne levo um tombo e ta cum buraco bem da comissão de frente. A minha tchutchuca tá disisperada porque os diretor da escola de samba num vai deixá mais ela disfilá como distaque sem dente. Qué dizê que gastamo dinhero a toa com o aplique. Aí, resolvi iscreve pra madame qui é dotora e minha cliente com muita satisfação pra sabe se a senhora podi mi ajudá. Falo cum a madame que os filho da senhora pode come bala a vontadi porque tem dentista pago e bom, né. Será que a madame podi arrumá dele atende a Shayenne e consertá o dente quebrado de graça até o Carnaval. Em troca prometo muitas bala pras criança.

Muitobrigado.

Uellerson

Aquarela do Brasil

Para assistir uma, duas, três vezes !!! Observe a perfeição na dicção das palavras em português.
Pode-se perceber levemente a pronúncia diferente da nossa, mas é de arrepiar, com o Perpetuum Jazzile sacando o ritmo do samba como raríssimos estrangeiros conseguiram fazer !!!! Realmente é de assombrar. 
Parece um coral de brasileiros, mas é da longínqua e fria ESLOVÊNIA.

PS – Notem a 'sempre original' contribuição de nosso espetacular conjunto vocal BR-6. 

A Carta do Tempo


Goiânia, 08 de fevereiro de 1990.
Meu caro Rodrigo,

Escrevo-lhe esta carta para que leia daqui a exatos vinte anos.
Meu objetivo é lhe lembrar quem você era, para você refletir sobre quem você é.

Ao ler estas linhas você estará com a senil e inimaginável idade de 37 anos (!), e eu ainda nas áureas 17 primaveras (antes imaginava que este ano disputaria minha primeira Copa do Mundo, mas os olheiros falharam e ainda não me descobriram para o futebol).
Algumas novidades lhe conto (novas só para mim, por óbvio!): há pouco mais de quinze dias dei meu primeiro beijo na boca. Talvez você não se lembre, mas foi no seu aniversário de 1990. E estou namorando a menina! Confesso-lhe, você vai me entender, que já penso até em casar com ela! Meu pai me diz: "moleque, vai viver, vai beijar outras, que história de ficar namorando!", mas não estou nem aí, quero é namorar mesmo uma só.

Mudando um pouco de assunto, acabei de votar na primeira eleição presidencial após a ditadura. No primeiro turno cravei Ronaldo Caiado, pelo singelo, justo e pragmático motivo de ser o candidato goiano, disputando com o rival paranaense a quarta ou quinta posição. Minha mãe também votou nele, porque acha ele lindo. Tudo bem, você pode até me achar um adolescente babaca e um pronto e acabado alienado político, mas acho ambos os motivos (meu e de mamãe) válidos. No segundo turno, para me redimir, anulei meu voto, escrevendo na cédula "PUNK'S NOT DEAD!", e desenhando um símbolo enorme do anarquismo! Vai, fala que sou alienado agora!
Boa notícia: acabo de passar no vestibular. Vou fazer Direito. Queria fazer Jornalismo, mas meu pai disse que não pagaria a inscrição na prova, perguntando que eu queria o quê? Trabalhar na rádio com o Kajuru, comentando os jogos do campeonato goiano? É, ele tem razão, quero mais é um carguinho no governo, casar, ter meus três ou quatro filhos e uma casinha em condomínio fechado aqui no Cerrado. Ainda poderei viajar o mundo inteiro, ver o Flu contra o Boca em Buenos Aires, em Tóquio ganhando do Milan na final do Mundial, ir ao show dos Inocentes no Circo Voador, ver os Replicantes em Porto Alegre, e, quem sabe, a volta caça-níquel do Clash em Wembley!

Bom, espero somente que com tua avançada idade não tenha ainda perdido o prazer de sonhar. E que nunca deixe de ser quem você é, seja você quem for. O mais importante: que, se de tudo isso que penso em me tornar nada (ou pouco) logrei ser ou fazer, que tenha pelo menos curtido o caminho.

Do cara que mais te quer bem (sem contar com mamãe, claro),

Rodrigo

P.S. Vou tentar ouvir, pelo menos uma vez por ano, "Forever Young" do Dylan. Te prometo. 

Gregor Sansa X Cuenca


Amor nos tempos pós-modernos

Ando preocupado. Ultimamente, você não tem me ouvido. Resolvi escrever.

Querida, entregar-se ao desencantamento pelo universo do amor não é o melhor remédio para as surpresas recentes. Não adianta passar as noites lendo e relendo os livros do Bauman e culpando a sociedade pós-moderna pela fragilidade dos laços afetivos. Sim, é verdade que as pessoas estão mais voltadas às relações instantâneas e egoístas e que hoje muito se valoriza a paixão – esse sentimento vulcânico alimentado pela ansiedade e pela urgência absoluta do outro e que pode se desfazer na mesma fração de segundos em que se fez; que as mulheres adotaram um discurso masculino e dizem querer transar com o carinha que acabaram de conhecer só por essa noite porque eu o estou usando como ele a mim; que os homens acostumaram-se ao sexo fácil com a mocinha daquela noite e que diz não se importar se ele vai ligar amanha e já assumem o desejo de nunca manter uma relação estável preferindo, ambos, preencher o vazio de suas solidões com mais uma noitada; que traição é natural porque só se sabe sair de uma relação com outras engatadas tamanho o medo de ficar sozinho; e casos são freqüentes e até animam o monótono casamento. Sim, querida, tudo isso existe. No entanto, é essa mesma sociedade pós-moderna a que aceita as diferenças: há espaço para os que, como você, não acham piegas amar; que acreditam nas relações afetivas como lugar para compartilhar a verdade e o melhor de si mesmo; que bem convivem com a solitude; que sentem que companheirismo, afinidade, identidade de valores e uma pitada de desejo são ingredientes capazes de fermentar o bolo do amor. Portanto, arranque-se desses programinhas com você mesma entre livros, filmes e vinhos e facilite a minha vida. Reconheça o meu trabalho árduo em ajudá-la a se desvincular dessa história do passado. Além de tentar ajudá-la a ver que ele não era o amor da sua vida, por vezes já a fiz tropeçar em pessoas bacanas, que você nem notou, imersa que estava em sua certeza de que, hoje, as pessoas só querem relações superficiais regadas a traição. Lembra-se do rapaz da loja de vinhos? E do economista do 3o andar? Já até induzi aquele ex-namorado da adolescência a sonhar com você e enviar um convite ao reencontro com a história inacabada. Além de sempre colocar em seu caminho amigos que querem mostrar a você a graça de estar solteira em uma cidade culturalmente efervescente como o Rio de Janeiro. Mas você está dificultando, em muito, o meu trabalho. PARE DE ME ATRAPALHAR. CHEGA!!! Já passou o tempo de recolhimento necessário na entre safra do relacionar-se. ABRA-SE para a vida. Você já é capaz de identificar os que lhe são afins na diversidade do pós-moderno. E, por fim, pare de conversar ao celular enquanto dirige. Você está cansando a minha paciência celestial.

Com carinho,
Do seu anjo da guarda. 

No Caminho

Segunda à noite tomei meu rumo, são apenas dois quarteirões até o curso. O que era para durar cinco breves minutos se tornou uma eternidade de quinze. Encontrei uma amiga de adolescência, moradora do bairro, com quem volta e meia cruzo. Tem vezes em que ela só acena de longe, outras, para e cumprimenta, e tem vezes que mudo o meu trajeto de propósito.
 
Não é que não goste dela, mas o que me incomoda é que viro uma mera ouvinte nesses encontros. Todas as minhas frases servem como  gancho para ela despejar seus casos e seus problemas. E quando começa não consigo me desvencilhar mais. Tento de todas as maneiras terminar a frase com algo do tipo:“pois é, não tem jeito, são todos iguais”. Isso para mim é fim de papo, o que mais ela pode falar diante dessa conclusão. Não tem link que possa ser feito a partir daí. Vai falar o quê ?

Estávamos ali, na calçada. Ela, entretida em seu monólogo interminável, não percebeu quando uma barata, daquelas cascudas e com antenas enormes, começou a subir por sua perna. Eu ia avisá-la, mas o inseto foi mais rápido e antes que eu pudesse falar já havia se metido saia adentro. Nesse instante, ela começou a se mexer e pular, tentando se livrar da barata que lhe fazia cócegas. Todos na rua olhavam, eu rindo por dentro, só conseguia pensar na aula que já devia ter começado.

Não sei quanto tempo durou aquela cena ridícula, não devem ter sido mais de trinta segundos. Assim que se livrou da barata, que saiu completamente tonta  daquela saia, depois daquilo tudo, começou a puxar um outro assunto que duraria mais alguns longos minutos: “Lembra do Pedro? Nem te conto…” Uma máquina! Inacreditável!

Finalmente tomei fôlego e consegui interrompê-la.  Disse que estava atrasada e precisava ir para o curso. Nos despedimos e rapidamente segui em frente. Só sei que, esse caminho não tomo mais.

Ana Luiza

Já passou meu bem

O parque bem aqui ao lado me faz lembrar que preciso escolher alguém sobre quem escreverei algo. Olho pela janela do carro, mas não vejo ninguém. A chuva assustou as pessoas. No rádio, a voz de Paul Weller acompanha o meu olhar. Adoro Paul Weller. Sei que você está ali num daqueles prédios de apartamentos se preparando para sair. Conheço essa tua rotina. Mudo de idéia e decido ir embora, mas é tarde, você já está parado lá. Vejo você, mas você não pode me ver. Adoro películas de proteção. Agora você está aí sozinho, parado na esquina molhada. Conheço essa esquina. Lembra, foi nela que um dia a gente jurou que também era para sempre. O que a insensatez uniu o homem não separe. Aí também você disse para eu ir embora e depois segurou minha mão. Fica. Não falava a sério. E agora você está aí sozinho, molhado na esquina parada.

Então é isso, é sobre nós que vou escrever? You do something to me rolando no rádio. Odeio Paul Weller. Nosso amor começou clandestino. A princípio, nos escondíamos do mundo; depois de nós mesmos. Dois clandestinos naquele teu escritório branco. Odeio paredes brancas. Lá tudo era sem graça, menos você. Ah, você... Você era do tipo que abria a porta do carro. Quando ganhamos o “Green card”, eu fui até a tua casa. Entrei pela porta da frente naquela sala bege. Odeio paredes beges. Lá tudo era sem graça, inclusive você. Abria a porta do carro, mas não a do coração. Pisando no chão de pedra do teu quarto senti frio. Quis ir embora, mas nem sei por que fiquei. Na realidade, nunca soube a razão desse amor. Quando eu estava sozinha, sentia saudade de você. Quando estava com você sentia saudade de mim. Soa patético. E é. Assim como aqueles teus docksides tão anos 80.

Vejo você atravessando a rua. Eu aqui parada. O tempo passando pela gente nesta esquina parada. A vida parada por um momento. Os teus cabelos agora são brancos, eu já não sinto mais saudades e o Tom Waits rolando no rádio me faz lembrar que já passou, meu bem. Adoro Tom Waits.

Nane

Miles Davis

Miles Davis moldou a música no século XX. Caso único de um músico que se manteve na vanguarda por mais de quarenta anos. Blue in Green, lançado no álbum 'Kind of Blue' em 1959, é atualmente considerado um clássico. De um lirismo inspirador, o tema não perde a contemporaneidade. 

Vampirizando o Cuenca

Estou sendo seguida. Não sei exatamente desde quando, mas tenho certeza que você está me seguindo. Sua estratégia de escolher lugares públicos não deu certo e chegou a hora de desmascará-lo.

Comecei a desconfiar de tudo pouco mais de um mês atrás. Cheguei cedo ao lançamento de “Flores” do Mario, na Travessa do Leblon. Não havia quase ninguém no mezanino. Estava tomando uma taça de vinho e fazendo anotações quando você passou por mim e sentou-se bem à minha frente. Confesso que tive medo, mas agi naturalmente.

Tudo parecia uma grande coincidência até você aparecer ao meu lado novamente, desta vez no lançamento de “Clarisse”, na Travessa de Ipanema. Foi a partir daí que comecei a ter certeza que estava me seguindo. Cheguei a acreditar que éramos apenas dois admiradores dos mesmos livros, das mesmas livrarias. Afinal Leblon e Ipanema são bairros relativamente próximos, não são?

Mas o que dizer do Baixo Gávea? Almoçar no mesmo lugar que eu, no mesmo dia que eu, no mesmo “Garota” que eu, não me deixou mais dúvidas. Se fosse apenas um almoço despretensioso você poderia ir ao “Garota da Urca” ou de Ipanema. Mas você escolheu o “Garota da Gávea”. Tantas garotas por aí... Por que eu?

Aquele era o meu bairro, a minha rua, a minha casa! E o que dizer daqueles textos cifrados em forma de crônica, colocados todas terças debaixo da minha porta? Você quer me enlouquecer? E as mensagens que invadem o meu computador com menos de cento e quarenta caracteres quase todos os dias pela internet? Por favor, pare de me seguir! Nem mesmo num canal de notícias consigo me livrar de você!

Decidi pôr um fim nesta perseguição. Dentro do ônibus, a caminho daqui estava decidida a colocar tudo em pratos limpos. Foi quando olhei da janela do ônibus e vi você, vestindo camisa listrada, atravessando a rua em frente a Praça Santos Dumont. Você mora na Gávea!

Foi assim que eu me dei conta que quem tava te seguindo era eu.

Leticia Torgo

Quase morri sem ver o mar

Não sei o que me mantém neste estado. Não sei se foi a visão do Raul trancado fora da casa durante a tempestade, ou se foi segui-lo até a praia. Há quarenta dias vivo dos cuidados alheios, vegetando, paralisada.

Pobre Raul. Sem aviso, sem nenhuma possibilidade de previsão, a vida lhe apresentou o inferno. Raramente se queixava. A dor permanente já era parte de seu dia somente variando na intensidade. Quando sua cabeça estava para estourar, ele saia. Buscava na rua, no ar puro, na escuridão da noite, uma trégua que os remédios já não proporcionavam.

Eu sofria, como sofreria qualquer um, vendo a mente de Raul se desarrumar. Tinha visões, dizia coisas desconexas. Sua cor preferida, azul, estava alucinadamente presente em tudo. Dizia azul a escuridão da noite, o verde das arvores, e até meus olhos castanhos, velhos conhecidos de mais de quarenta anos, azuis...

No inicio eu o corrigia:
- O quarto de nossa filha é rosa, até hoje. Não é azul, meu querido.

Isabela já não morava conosco, mas seu quarto ficara intocado – rosa. Raul, o via azul...

Aos poucos meu estranhamento cessou. O doutor informou que distúrbios de comportamento ocorreriam. Tudo iria se agravar. Sabe como é... A realidade vem – nos atropela. Vem a revolta, e, de mansinho, vem a aceitação. Aceitação do azul, um azul irreal, que junto com a dor, passou a reger as nossas vidas.

Naquela noite, quando o olhei pela janela, a chuva e o vento batiam em seu corpo. Tinha os braços montados sobre a cabeça como querendo protegê-la. Desci as escadas, e fui ao seu encontro procurando aliviar seu desespero. Raul me apertou contra seu peito molhado. Ficamos em silencio, na chuva, ao vento. Uma estranha sensação de encontro final. Não haveria mais nada que eu pudesse fazer a não ser ajudá-lo na caminhada.

Entramos, e eu providenciei roupas e uma bebida quente. Por um momento ele me pareceu calmo e sem as contrações que as dores lhe causavam. Colocou o meu rosto entre as suas mãos e disse:
- Eu vou.
- Agora?
- Chegou a hora.
- Mas...
- Já conversamos.

Permaneci imóvel enquanto Raul foi ao quarto e voltou com uma mochila vazia presa as costas.
- Por favor, fica mais um pouco. Eu te peço.
- Passei do meu limite. Já conversamos. Me ajude.
- Eu te amo
- Então me ajude.

A claridade da manhã já era suficiente para mostrar a rua esburacada que o levaria até ao mar. Nos abraçamos. Lentamente Raul se desvencilhou de meus braços, me beijou e saiu caminhando com dificuldade. Então havia feito a escolha. Caminhava para o imenso azul do mar.

Instintivamente comecei a segui-lo à distancia para que não me percebesse. Quebrei uma jura, perdi o controle. Um turbilhão de recordações, pensamentos e uma angustia infinita, me acompanhou naquela insólita caminhada.
- Quase morri sem ver o mar – disse
- Querido, você não vai morrer. A operação foi um sucesso. Eles tiraram o tumor - seu cérebro não está comprometido.
- E a biopsia?
- Dez dias.

Quando pisou na areia seu corpo estava vergado com o peso da mochila às costas, agora cheia de pedras catadas a esmo. Sem alterar o passo vacilante, entrou na água. Seguiu seu caminho com crescente dificuldade e determinação. Foi seu último encontro com o amado mar azul.

Vi quando a pequena onda lhe cobriu a cabeça para sempre. Vaguei pela rua ainda deserta. Eu não podia ter aceitado este trato, eu não poderia ter permitido... Não tenho coragem de voltar para casa. Vou ficando neste albergue até que me expulsem. As pessoas são amáveis. É um albergue azul, um azul fechado, marinho.

Paulo 

Mimeses

Uma hora ela chega. Quem não sabe?... Eu acho mesmo é que isso... uns sabem mais, outros sabem menos, outros nem sabem. Mas não tem importância, uma hora ela chega.
Eu, por mim, acho que fiz alguma coisa que prestasse. Formei meus filhos todos. Tudo formado, graças a Deus! Tão por aí, com a vida deles ajeitadinha. A minha é ir levando
Também... Que vida...? A comida não tem mais gosto. No meu tempo a gente criava porco era com inhame, taioba e caruru. Cê já não ouviu falar que caruru é comida de porco? Pois é. Hoje é porco preso comendo a tal de ração. Não dá, né, meu filho?... Porco tem mais é que focinhar na terra! Se não, não tem gosto! Essas coisas de agora... comida congelada, café de cafeteira... vou te dizer: nem me bate a passarinha! Mas vou levando assim mesmo... Vamos ver no que é que dá.
Olha, meu filho... uma hora ela chega. E eu fico aqui. Só esperando.
Zelma

O Trânsito Nosso de Cada Dia

É janeiro. E janeiro sempre me pareceu um mês mais devagar. Ainda estão frescos e soam alto as loucas e deliciosamente desafiantes promessas feitas na noite de reveillon... e iniciadas na primeira segunda-feira seguinte às festas (ou após o carnaval, conforme a promessa). As minhas promessas, vez em sempre, referem-se ao gerenciamento do meu tempo: quero aproveitar melhor o tempo, correr menos para estar mais presente em cada momento do meu dia. É por isso que janeiro me parece tão gostoso: o trabalho corre mais lento, o transito flui melhor, mas não o suficiente para afastar um engarrafamentozinho nosso de cada dia.
Hoje o trânsito está particularmente bom. Sinto até falta do congestionamento que já se anuncia na linha vermelha, nos outros meses do ano, há alguns kilômetros antes do Fundão no meu trajeto diário de volta do trabalho. Como o congestionamento não estava lá, eu corria um pouco mais e ainda não me havia dado conta da musica que tocava na MPB FM e de que já fazia mais de 3 horas do meu último lanche (e comer de três em três horas é uma das promessas renovadas de vez em sempre!).
Mas ele chegou, e, dessa vez, me assustando. Após uma freada um pouquinho mais brusca, observo um homem equilibrando-se entre carros com seu pacote de biscoito globo e pipoca doce em uma das mãos e um isopor nas costas. Ai, que susto! Esse homem é maluco? Será que ele não sabe que o engarrafamento, em janeiro, começa um pouquinho pra lá? Com certeza sim, eu me auto respondo, ele trabalha aqui, está aqui todos os dias, como eu! Já parada, peço uma água a um colega de trabalho do rapaz que eu quase atropelei, para me refazer do susto, que me diz, apressado: só a água? Só a água? Sim. Quanto é? E a pipoca? Rendo-me também a pipoca, que, pra mim, tem gosto de infância. Entrego cinco reais, abro o biscoito e a água e observo como está tudo sempre lá, pelo menos desde a minha adolescência, quando chegávamos ao Rio, nas férias, pela Av. Brasil: vários e vários trabalhadores vivendo do engarrafamento e da criatividade brasileira para inventar uma forma de fazer algum dinheiro. Mas janeiro traz um triste diferencial em relação aos demais meses: há crianças trabalhando na linha vermelha, sentindo, da pipoca, um outro gosto.
A lentidão do transito me ajuda a diminuir do ritmo da vida, a olhar o lado, a pensar o momento. Fecho o vidro, recolho-me e sinto o sambinha da Maria Rita que toca na radio: "E é a guerra das desigualdades/A humanidade lavando a roupa/Oportunidade não cruza o Rebouças/É muito louca a vida por aqui..."
Carina

Na Charutaria

Então porra o que mais você queria? Eu fiz tudo por você não admito que você me abandone assim agora porque eu te amei EU TE AMEI e tudo o que fiz não foi nada além disso a minha vida nunca teve ponto nem vírgula sempre fui assim um pouco (só um pouco) pacifista e sensível pra caralho e você sabia disso porque de mim você sempre soube muito bem só sei viver a vida se for intensamente porque já passei dos trinta e não quero chegar aos cinquenta com aquela sensação de que a vida não valeu a pena eu bebi muito eu fumei muito os meus filhos foram o prazer que eu tive o rosto inocente deles prova que o prazer é inocente e que essas igrejas são a solidificação da escória e da merda do pensamento humano não sou revoltado assim só tô encachaçado de whisky com meu velho e bom amigo Fred meu charuto que nunca vai me abandonar nunca NUNCA POIS VOCÊ ME ABANDONOU eu jamais te perdoo por isso mas tudo bem você me conhece muito bem e sabe que tudo que eu tentei ser a vida toda é um homem sério te olhar nos olhos e te dizer aqui estou venci mas a sensação agora percebo é de derrota pois tudo que vivi foi o pagar de contas o sexo por obrigação as sextas-feiras de chopp e as cinzas desse charuto que me consome já que eu não vou consumi-lo mais eu não quero acreditar que nasci por um capricho e agora sou medíocre a minha barba me vence pelo cansaço tu és pó e ao pó retornarás eu nunca cheirei mas vou virar pó cachaça no cérebro é foda deus se resume ao pó que vou virar eu não quero isso uma vida medíocre uma morte medíocre e que posso fazer contra isso já que sou humano e o ser humano acima de tudo é medíocre e belo em sua ignorância acho que sempre gostei de poesia e fui um menininho de óculos recitando Rimbaud eu podia ter sido livre EU PODIA TER SIDO LIVRE e isso é o que mais me dói a poesia acabou e hoje não é mais nada fui abandonado de novo AGORA POR VOCÊ tudo que fiz foi pra te agradar esse charuto que olha sabe disso cachaça no cérebro é uma merda mas quando bebo sou sincero e precisava te dizer isso que me consome e me mata eu te amei EU TE AMEI e pra sempre vou sentir sua falta o que não tem remédio remediado está fodam-se todos com os seus clichês a dor da falta da ausência é o que há e o que mais me dói mãe é eu ter te enterrado hoje porque esse deus que talvez exista quis e hoje eu não tenho o teu colo pra chorar eu não vou te perdoar por isso me perdoa mãe.
Eloise

Mimese

Eu roubo as galinhas mesmo e os homens me chamam de oportunista. Eles as criam em cativeiro só para si e têm sede por sangue, o meu sangue. Hoje em especial é um dia em que não tenho sossego. Vem um caçador após o outro eu fujo para qualquer canto. Longe deles miro as galinhas. HUMMM, que delícia de carne....... Amanhã já não lembro mais daquele sabor. Nada me prende: eu pulo sobre ciladas armadilhas saudades. Eu me satisfaço agora, me salvo de tiros logo depois. Viver sozinho, sem laços.

Mas o que você faz aqui? Bem, você não é o primeiro tolo que vem ouvir uma raposa mesmo. Está perdido? Sua inocência me encanta. De repente encontro, no fundo dos seus olhos, o vazio da minha alma. Quero... quero sentir um pouco de dor, não tenho medo. Eu procuro um significado dentro de mim, que perdure por toda minha vida, toda minha lembrança. Ah!! por favor, fique! Eu serei tão especial para você!

É preciso perder tempo para criar laços. Eu ganho plenitude, perco liberdade. Cativeiro... cativar. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
Sart

Muro

EU TENHO DOIS LADOS, DESDE QUE NASCI. Um só olha prra frrente e outro só olha prra trrás... OLHAR PRRA TRÁS?? NEIN! NEIN! NEIN! ME CHAMEM DE ANTIQUADO, MAS SOU É UM NACIONALISTA! AMO A PÁTRRRIA, AMO MINHA PAÍS! Eu amo meu povo, mas nem porrr isso sou um reacionário anacrrrônico. Entendo o que é liberrrdade. LIBERRRDADE! LIBERRRDADE! UM DELÍRRIO OCIDENTAL PARRA ENFRRRAQUECER O ESTADO! O CONCEITO DE LIBERDADE É RELATIVO A PARRRTIR DA MOMENTO QUE DESESTABILIZA O SOBERRRANIA NACIONAL! Se a liberrrdade constitui uma ameaça à soberrrrania de um país, tal soberrrania é que é frrrágil. EU FUI NECESSÁRRRIO! NO CONTEXTA HISTÓRRRICA, MINHA EXISTÊNCIA FOI IMPRRRESCINDÍVEL! EU SOU O SÍMBOLO DE TODO UM PERRRÍODO! O maior simbolismo está no que deixei de ser. MINHA IMPORRRTÂNCIA NON PODE SERR DIMINUÍDA, SÓ PORQUE HOJE ME RABISCAM E MIJAM EM MIM! EU SOU FORRRRTE! SOU GRRRANDE! SEMPRRE FUI TEMIDO! Mas ruímos, ambos os lados. YA! MAS NON FOI FÁCIL ME DERRUBAR HAHA! Mas no final, eu venci.

Depoimento exclusivo do Muro de Berlim para a turma do POP de João Paulo Cuenca. Agradecemos sua gentileza por ter conversado conosco em português.

Leonardo João

Mario Quintana


A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e enquanto isso a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
Mario Quintana

Papo de Camelô

Tô atrasadão. Num vô pegá lugar na isquina da São José com Quitanda. Ainda bem que guardei minhas parada com o safado do boteco que cobra cinqüenta real por noite. Filho da puta! Pelo menos posso corre mais rápido sem o peso das mercadoria. Aí, mermão, cadê minhas parada? Anda, porra, tô com pressa! Sô foda, meu lugar ainda tá lá! Tenho que montá a banca rapidinho. Oito horas os dotô e as madame começa a chegá pra trabalhá e num posso perde cliente. A Shayenne qué tanto colocá aquele aplique pro Carnaval. A minha tchutchuca vai abalá. Olha a bala! Olha o chiclete! Olha o chocolate! Aí, patrão, vai uma balinha pra animá a próxima reunião? Uma é dois, três é cinco. Seis? Valeu, sangue bom! Aí, Uelynton, a rapeize mi falô dum lugar chapa quente do outro lado da Poça... Pois não, tia, a senhora num qué levá chiclete pros garoto que tão em casa di férias? Ah, a tia pode pagá o dentista depois. Falô. Cumpadi, lá só dá mulhé “pê”. Bom dia, dotô! O de sempre? Bala di menta pro incontro com a amante e chocolate pra acalmá a patroa quando chegá tarde em casa? Já é! Pô, esse aí é mó mascarado. Bala, madame? Tem com açúca pra adoçá a vida e daiati pra num ingordá, mas a madame num precisa si preocupá com isso não. Então, maluco, lá só dá popozuda, porpurinada, potranca e preparada. Vamu zoá por lá amanhã?

Maria Paula

Alegrias Alheias

Há uma mulher parada em frente a um portão, com uma das mãos apoiada sobre o porteiro eletrônico, como se aguardasse autorização para entrar no prédio. Na praça em frente, quatro homens estão sentados em bancos de concreto ao redor de uma pequena mesa quadrada também de concreto. Atravesso a rua e me aproximo um pouco. Aí, então, percebo que cada um deles está com o seu celular na mão, mas nenhum deles está falando ao telefone. Jogando, zapeando ou aguardando um telefonema, eles estão apenas fazendo companhia, uns aos outros, em suas respectivas solidões. Vejo, então, mais adiante, uma moça passeando com o seu cachorro. Mas nada acontece e chego ao meu carro que está estacionado do outro lado da praça.

Abro a porta, entro no carro, ligo o motor, mas não o som. É preciso me concentrar na tarefa de observar a rua – seja para dirigir, seja para escrever. Decido, então, fazer o trajeto mais longo até a minha casa, assim há mais o que observar.

Guardadores de carro ainda uniformizados voltando para a casa após um longo dia de trabalho sob o sol escaldante e um calor de 38ºC. Apesar dos corpos curvados de cansaço, os sorrisos em seus rostos chamam a minha atenção. Muitas vezes, a alegria está onde menos esperamos encontrá-la. Sigo o meu trajeto. Sinal fechado. Um táxi está parado na minha frente. Uma família atravessa a rua. O pai, com um gesto de mão e uma indagação silenciosa no rosto, pergunta ao motorista se está livre. Então, com a família parada ali no meio da rua, ele abre a porta do carona e uma das portas de trás do táxi. Sinal aberto. As buzinas atrapalham a minha concentração, mas eu nem tento tirar o meu carro dali. Fico observando, curiosa para saber como o pai e a mãe gordos com os seus quatro filhos, fora o motorista, caberão em um Santana. A família, então, sem pressa ou preocupação, dá início a um entra e sai, como se precisasse experimentar todas as combinações possíveis de acomodação até encontrar a mais confortável. Sinal fechado novamente. Como um passe de mágica, a família consegue, então, entrar no táxi. Sinal aberto. Sigo o meu trajeto. Mais pessoas passeiam com os seus cachorros. Outras, suadas, voltam de uma corrida noturna na praia. Entro na minha rua. Lá, está um caminhão de lixo interrompendo a passagem. Antes que eu consiga dar ré, outros carros embicam atrás de mim. Alguns buzinam irritados com a prestação de um serviço tão necessário à população. Presa ali, eu continuo a observar a rua. O trabalho dos lixeiros é insalubre e repetitivo. Rua após rua, noite adentro, arrastando lixeiras e carregando sacos de lixo, despejando-os na caçamba do caminhão. Por que será que os lixeiros estão sempre sorridentes e de bom humor? Não sei. Não faço idéia. Por azar, um dos sacos de lixo se rompe e os lixeiros começam a recolher o seu conteúdo do asfalto. De repente, eles param. Por sorte, encontram no meio do lixo uma bola de futebol, com o couro já bastante roto e, despreocupadamente, dão início a uma rápida troca de passes, mostrando as suas habilidades futebolísticas aos motoristas ali parados e aos pedestres noturnos. O último toque manda a bola para dentro da caçamba do caminhão e o trabalho continua, mais alegre ainda. Cinco minutos depois, os lixeiros sobem no caminhão e o motorista arranca, dando finalmente passagem aos carros. O meu prédio está logo ali, no próximo quarteirão.

E, ao cruzar o meu olhar com a minha própria imagem no espelho do elevador, me surpreendo com o sorriso no meu rosto. Sorriso roubado das alegrias alheias.

Maria Paula

Chega lá

Aí, na moral, juro, um dia ainda vou contar, ainda vou contar e jogar na cara da Eliete quantos passos por dia eu dou nessa areia quente. Na moral, a mulher vive reclamando que não faço nada, que não penso na pequena. Como não penso? Se aturo essa areia quente todo dia, esse bando de playboy que não faz nada, só atrapalha minha passagem. Olha aquele idiota ali, olha. Ele fuma um baseado num bem-bom e eu aqui. Na moral, não posso esquecer de ligar pra Eliete, saber se a febre da pequena baixou. Daqui a pouco vou dar uma paradinha, quando chegar lá no Bené, eu dou. Nóoossa, que mulher gostosa, tipo Juliana Paes aquela ali, acho que vou chegar lá pra ver se rola. Vai que ela tá com sede. Foi assim que cheguei junto da Cleide, nunca esqueço. Aliás, essa aí, nunca mais eu. Na moral, tô em baixa mesmo. Vou lá, vou chegar lá, falar que é diet, bom que chego perto d'água, refresco a cabeça, parece que tô fritando. E é tudo culpa da Eliete, ela que enche minha cabeça, enche tanto que chego aqui na praia e fico ouvindo a voz da mulher. Ô praga! Ih, aquele gringo ali vai querer, não é possível, vou caprichar no english, vai rolar, vai rolar.
Elisa

Festa Na Roça

Falei pra minha mãe, dona Creusa, que não ia dar certo! Eu, solteiro, a perigo, indo em festa de família na roça, em pleno sábado! Mas dona Creusa me puxou a orelha, disse "Sávio, ô menino desnaturado, deixa de ser besta, vai sim levar sua mãe!" E lá fui eu perder meu sábado à noite. Chegando lá, a coisa tava mesmo feia pro meu lado: só parente e nenhuma prima que desse um caldo. Aí eu vi a babá de um primo: mirradinha, zoiudinha, barriguinha de lobó. Nóóó, feia de dar dó! Pensei que só tinha uma solução: beber muito pra encarar! Cervejinha vai, cervejinha vem, olhei para ela, já tava até ficando menos feia. Pra garantir, mais um monte de latinha de cerva! Não deu outra: logo levei ela prum quartim e fui logo dando uns garras nela. Mas ela não quis dar pra mim de jeito nenhum. Logo a festa acabou e fomos pousar lá na fazenda mesmo, todo mundo junto. Desligaram o gerador e ficou aquele breu. No meio da noite eu acordo, morrendo de sede, e quem vejo do meu lado? A feiozinha! Não pensei duas vezes, fui logo fazendo um cafuné. Ela deixou, aí passei as mãos nas costas dela. Uai, pensei, a menina tá querendo. Então, com gosto, meti a mão à popa dela. Nóó, nunca levei tanto tapa na minha vida! "Sávio, ô menino sem vergonha, que que cê ta pensando?". Foi quando vi que tinha apalpado a dona Creusa, minha mãe. Depois de apanhar muito, fui beber água e voltei a dormir. Logo depois, acordei de novo e olho para o lado e penso: uai, a menina aqui outra vez? Tá querendo... Falei que não ia dar certo!

Rodrigo

Sem

Ela me traiu.

Na primavera das nossas vidas, vi-a desabrochar e a colhi pra mim. No verão da nossa vida, trabalhamos como a formiga na fábula da cigarra, criamos filhos, desejamos e conquistamos. Agora que chegamos ao outono da meia-idade, quando tínhamos tantos planos de viajar e estragar os netos, ela vai embora. Vai atrás do desconhecido, de uma nova aventura. Desta vez sem mim.

Ela me deixou.

E eu fiquei aqui, com o consolo de vagar pela casa e ver nos espelhos seu reflexo passando, sentir sua presença nas panelas que ela não sabia usar, nas flores semanais que não estão no jarro em cima da mesa da sala, no armário agora sem suas coisas mas ainda com o cheiro dela. À noite, busco suas mãos, seus pés e seus seios em nossa cama, e quase os encontro.

Ela me enganou.

Havíamos combinado que eu morreria primeiro.

Gisela.

Um Conto de Carnaval

Era só o que me faltava!
Audáaacia de bicha velha! – Velha e pobre!
Imagiiine...! Eu... revelar a minha fantasia, antes do carnaval. Nem móorta!
Logo eeeu... ‘que-nunca-caí-do-salto’, dar uma de contar tudo....... Deve ‘tá louca! Pirou! Totalmente desvairada!
Saaabe... Fiquei bege!
........................................................?
Geeente...! Será que ele não entendeu? Fantasia é SURPRESA! – segredo que não se conta nem pra’ própria mãe.
‘Tá guardadinha no armário – trancada a sete chaves.
Até porque... ‘escondida-hoje-no-armário’, só tem mesmo a fantasia.
Mas........ pensando bem.......num tem problema. Falo uma coisinha aqui, digo outra ali e mais outrinha ali, e pronto. Adóoro torturar!
Assim, tipo... ‘deixa-a-bicha-curiosa’. E sabe o que o bofe vai descobrir?
Zero, vírgula zero.

Richard