James Baldwin
Eu não escrevo carta
...de muito longe...
Recebi uma carta...
Não vou perguntar como vais, até porque não quero ouvir o pior. Não quero ouvir estou muito bem, obrigada, espero que estejas bem também. Porque eu não estou bem, e não queria que estivesses feliz longe de mim. Desde o nosso encontro perto do deserto, tu me cativaste e és responsável por mim. Mas será que foste verdadeira?
Quando tu foste embora, eu realmente chorei, realmente sofri. Resolvi sair pelos bosques e buscar a reflexão e o auto-conhecimento. Cheguei nas franjas do deserto e contemplei, olhando no horizonte, o vazio dentro de mim. O oco na minha alma que anos de fugir de caçadores e caçar galinhas me causou. Mesmo com o calor, me arrepiei. De medo, medo de ter me perdido de mim. Então resolvi voltar, e todas as tardes, às cinco horas, ficava olhando a brisa que vinha espalhar a relva; me fazia lembrar dos teus cabelos. Preparava meu coração desde o meio-dia. Eu sigo ritos e tenho todo o tempo do mundo. Eu valorizo a essência, eu valorizo o que fica e o que os olhos não vêem nem os dedos tocam. Como eu, não há mais raposa na Terra.
E como tu, não há mais em todo o universo. Não és mais uma humana qualquer, nem sou mais a mesma raposa, desde que me cativaste. Ai... volta, Sart!
Hum... que fome... Já é hora do desjejum... faz tempo que comi meu último franguinho.
Com carinho,
Carta ao Leo
Antonin Artaud
Um dentista para Shayenne
Aquarela do Brasil
A Carta do Tempo
Amor nos tempos pós-modernos
No Caminho
Já passou meu bem
Miles Davis
Vampirizando o Cuenca
Quase morri sem ver o mar
Mimeses
O Trânsito Nosso de Cada Dia
Na Charutaria
Mimese
Muro
EU TENHO DOIS LADOS, DESDE QUE NASCI. Um só olha prra frrente e outro só olha prra trrás... OLHAR PRRA TRÁS?? NEIN! NEIN! NEIN! ME CHAMEM DE ANTIQUADO, MAS SOU É UM NACIONALISTA! AMO A PÁTRRRIA, AMO MINHA PAÍS! Eu amo meu povo, mas nem porrr isso sou um reacionário anacrrrônico. Entendo o que é liberrrdade. LIBERRRDADE! LIBERRRDADE! UM DELÍRRIO OCIDENTAL PARRA ENFRRRAQUECER O ESTADO! O CONCEITO DE LIBERDADE É RELATIVO A PARRRTIR DA MOMENTO QUE DESESTABILIZA O SOBERRRANIA NACIONAL! Se a liberrrdade constitui uma ameaça à soberrrrania de um país, tal soberrrania é que é frrrágil. EU FUI NECESSÁRRRIO! NO CONTEXTA HISTÓRRRICA, MINHA EXISTÊNCIA FOI IMPRRRESCINDÍVEL! EU SOU O SÍMBOLO DE TODO UM PERRRÍODO! O maior simbolismo está no que deixei de ser. MINHA IMPORRRTÂNCIA NON PODE SERR DIMINUÍDA, SÓ PORQUE HOJE ME RABISCAM E MIJAM EM MIM! EU SOU FORRRRTE! SOU GRRRANDE! SEMPRRE FUI TEMIDO! Mas ruímos, ambos os lados. YA! MAS NON FOI FÁCIL ME DERRUBAR HAHA! Mas no final, eu venci.
Depoimento exclusivo do Muro de Berlim para a turma do POP de João Paulo Cuenca. Agradecemos sua gentileza por ter conversado conosco em português.
Leonardo João
Mario Quintana
Papo de Camelô
Tô atrasadão. Num vô pegá lugar na isquina da São José com Quitanda. Ainda bem que guardei minhas parada com o safado do boteco que cobra cinqüenta real por noite. Filho da puta! Pelo menos posso corre mais rápido sem o peso das mercadoria. Aí, mermão, cadê minhas parada? Anda, porra, tô com pressa! Sô foda, meu lugar ainda tá lá! Tenho que montá a banca rapidinho. Oito horas os dotô e as madame começa a chegá pra trabalhá e num posso perde cliente. A Shayenne qué tanto colocá aquele aplique pro Carnaval. A minha tchutchuca vai abalá. Olha a bala! Olha o chiclete! Olha o chocolate! Aí, patrão, vai uma balinha pra animá a próxima reunião? Uma é dois, três é cinco. Seis? Valeu, sangue bom! Aí, Uelynton, a rapeize mi falô dum lugar chapa quente do outro lado da Poça... Pois não, tia, a senhora num qué levá chiclete pros garoto que tão em casa di férias? Ah, a tia pode pagá o dentista depois. Falô. Cumpadi, lá só dá mulhé “pê”. Bom dia, dotô! O de sempre? Bala di menta pro incontro com a amante e chocolate pra acalmá a patroa quando chegá tarde em casa? Já é! Pô, esse aí é mó mascarado. Bala, madame? Tem com açúca pra adoçá a vida e daiati pra num ingordá, mas a madame num precisa si preocupá com isso não. Então, maluco, lá só dá popozuda, porpurinada, potranca e preparada. Vamu zoá por lá amanhã?
Maria Paula
Alegrias Alheias
Há uma mulher parada em frente a um portão, com uma das mãos apoiada sobre o porteiro eletrônico, como se aguardasse autorização para entrar no prédio. Na praça em frente, quatro homens estão sentados em bancos de concreto ao redor de uma pequena mesa quadrada também de concreto. Atravesso a rua e me aproximo um pouco. Aí, então, percebo que cada um deles está com o seu celular na mão, mas nenhum deles está falando ao telefone. Jogando, zapeando ou aguardando um telefonema, eles estão apenas fazendo companhia, uns aos outros, em suas respectivas solidões. Vejo, então, mais adiante, uma moça passeando com o seu cachorro. Mas nada acontece e chego ao meu carro que está estacionado do outro lado da praça.
Abro a porta, entro no carro, ligo o motor, mas não o som. É preciso me concentrar na tarefa de observar a rua – seja para dirigir, seja para escrever. Decido, então, fazer o trajeto mais longo até a minha casa, assim há mais o que observar.
Guardadores de carro ainda uniformizados voltando para a casa após um longo dia de trabalho sob o sol escaldante e um calor de 38ºC. Apesar dos corpos curvados de cansaço, os sorrisos em seus rostos chamam a minha atenção. Muitas vezes, a alegria está onde menos esperamos encontrá-la. Sigo o meu trajeto. Sinal fechado. Um táxi está parado na minha frente. Uma família atravessa a rua. O pai, com um gesto de mão e uma indagação silenciosa no rosto, pergunta ao motorista se está livre. Então, com a família parada ali no meio da rua, ele abre a porta do carona e uma das portas de trás do táxi. Sinal aberto. As buzinas atrapalham a minha concentração, mas eu nem tento tirar o meu carro dali. Fico observando, curiosa para saber como o pai e a mãe gordos com os seus quatro filhos, fora o motorista, caberão
E, ao cruzar o meu olhar com a minha própria imagem no espelho do elevador, me surpreendo com o sorriso no meu rosto. Sorriso roubado das alegrias alheias.
Maria Paula
Chega lá
Festa Na Roça
Falei pra minha mãe, dona Creusa, que não ia dar certo! Eu, solteiro, a perigo, indo em festa de família na roça, em pleno sábado! Mas dona Creusa me puxou a orelha, disse "Sávio, ô menino desnaturado, deixa de ser besta, vai sim levar sua mãe!" E lá fui eu perder meu sábado à noite. Chegando lá, a coisa tava mesmo feia pro meu lado: só parente e nenhuma prima que desse um caldo. Aí eu vi a babá de um primo: mirradinha, zoiudinha, barriguinha de lobó. Nóóó, feia de dar dó! Pensei que só tinha uma solução: beber muito pra encarar! Cervejinha vai, cervejinha vem, olhei para ela, já tava até ficando menos feia. Pra garantir, mais um monte de latinha de cerva! Não deu outra: logo levei ela prum quartim e fui logo dando uns garras nela. Mas ela não quis dar pra mim de jeito nenhum. Logo a festa acabou e fomos pousar lá na fazenda mesmo, todo mundo junto. Desligaram o gerador e ficou aquele breu. No meio da noite eu acordo, morrendo de sede, e quem vejo do meu lado? A feiozinha! Não pensei duas vezes, fui logo fazendo um cafuné. Ela deixou, aí passei as mãos nas costas dela. Uai, pensei, a menina tá querendo. Então, com gosto, meti a mão à popa dela. Nóó, nunca levei tanto tapa na minha vida! "Sávio, ô menino sem vergonha, que que cê ta pensando?". Foi quando vi que tinha apalpado a dona Creusa, minha mãe. Depois de apanhar muito, fui beber água e voltei a dormir. Logo depois, acordei de novo e olho para o lado e penso: uai, a menina aqui outra vez? Tá querendo... Falei que não ia dar certo!
Rodrigo
Sem
Ela me traiu.
Gisela.


