Gilberto Reis

Quando o Pai do Pai do Pai do meu Pai tinha uma tarefa difícil a cumprir, dirigia-se a um certo lugar na floresta, fazia uma fogueira e lançava-se numa oração silenciosa.

Quando mais tarde o Pai do Pai do meu Pai se encontrou perante a mesma tarefa, dirigiu-se ao mesmo lugar da floresta e disse: já não sabemos fazer uma fogueira, mas ainda sabemos rezar.

Mais tarde o Pai do meu Pai viu-se perante a mesma tarefa. Foi ele também à floresta e disse:já não sabemos fazer fogueiras, já não conhecemos os mistérios da oração, mas sabemos em que ponto da floresta é que isso se passou.

Quando a vez do meu Pai chegou, disse:já não sei fazer a fogueira, nem orar, nem o lugar na floresta, mas sei contar a história e isso deve bastar. E bastou.
Quando me vi perante a mesma tarefa já não sabia contar a história.

Quase morri sem ver o mar

A viagem fora planejada com alguns meses de antecedência, mas só a convidaram alguns dias antes de que uma enorme van cheia de jovens adolescentes estacionasse em frente à sua casa para recolhê-la. Sua mãe veio diligentemente até a porta de entrada para entregá-la aos cuidados do único adulto do grupo. A mãe havia assado umas roscas, um doce  típico de seu estado natal; as quais teve o capricho de envolver  em um papel celofane, amarrando o pacote com um belo laço de fita vermelha; "...assim ficam mais bonitas e apetitosas" dissera a mãe para garota que a olhava com um sorriso sem-graça,  já prevendo o constrangimento que o gesto da mãe lhe causaria.

Depois de vê-la instalada na van a mãe entregou orgulhosamente seu precioso embrulho à senhora que zelaria por sua filha por quase uma semana – como se aquela pequena oferta garantisse que sua filha seria bem tratada.

No café da manhã do primeiro dia as roscas ficaram esquecidas em um canto da mesa. Ninguém as quis comer, nem mesmo ela que envergonhada (consigo mesma) fez cara de nojo imitando os demais sentados à mesa. Interiormente no entanto seu coração estava apertado sentindo uma pena enorme da mãe a quem jamais ocorreria a razão para tamanha rejeição...

Depois do café, finalmente, foram todos para a praia. A manhã  estava radiante, o  céu sem uma única nuvem para perturbar sua placidez azulada, o sol já indo alto no horizonte. Quando a garota pela primeira vez na vida entrou em contato com a areia se sentiu um pouco incomodada, a sensação tátil prazerosa veio misturada com a irritação ao ver que ao menor contato com a areia seu corpo saía marcado - a areia formando faixas amareladas nas suas pernas e braços. Com o passar das horas começou a se sentir – que ironia!, como uma das roscas da mãe, o açúcar cristalizado dando vez à areia que parecia cobri-la  do dedão do pé ao último fio de cabelo.

A garota olhou à sua volta a procura de socorro - Chegara a hora de enfrentar o mar! Sua melhor amiga percebendo seu ar de desconsolo, aproximou-se e puxando-a para o lado, cochichou no seu ouvido: - "É verdade que você nunca viu o mar?". A garota sentiu um rubor queimar sua face. Quem teria feito tamanha traição e contado algo que ela considerava inconfessável? A idiota da mãe com certeza! Já não bastara a estória da rosca... ela poderia ter me poupado de mais esse vexame! A garota virou-se para a amiga e com um ar desafiador, na esperança de que a mentira colasse, disse: -"É claro que não! Eu já vi o mar um montão de vezes...". A amiga insistiu: -"Então por que sua mãe disse para minha mãe que cuidasse de você porque você jamais tinha nadado no mar?". A garota engoliu em seco, subitamente uma idéia - é claro:_ "Mas é isso mesmo, eu nunca NADEI no mar o que é bem diferente de jamais ter VISTO o mar, né?". A amiga meio confusa a olhou com estranheza: –"Você tem umas idéias! É claro que eu também não nado no mar... minha mãe teria um ataque de nervos se me visse nadando". A garota sorriu aliviada – dessa havia escapado! Virou-se para a amiga e com um ar maroto sugeriu: - "E se a gente for nadar agora?".

As duas saíram correndo em direção ao mar. A garota sentia seu coração bater forte no peito. Ao primeiro contato com a água, seu corpo se enrijeceu na expectativa do que viria a seguir. Surpreendeu-se com a temperatura da água–fria, mas essa sensação foi logo tomada pelo deslumbramento ao ver as ondas quebrando aos seus pés, deixando à sua passagem um rastro de espuma branca que a envolvia em um abraço efervescente. Avançava com cautela uma vez que não tinha a menor idéia da textura do fundo do mar e tampouco de sua profundidade – ia afundando aos poucos ou de repente cairia em um abismo? Quando furou sua primeira onda se sentiu gloriosa e quando descobriu que poderia voltar à praia na crista de uma onda sua satisfação já não tinha limites. Mas nada comparado ao prazer de desfrutar em silêncio, sem que os outros sequer se dessem conta, a descoberta desse mundo novo que entrava em sua vida para marcá-la para sempre.

Cristina

Um jantar inusitado – em Tokyo

Não me pergunte como cheguei lá.  Mas eu estava Tokyo. Num jantar do qual guardo estranha lembrança.  O cenário era calmo, numa sala limpa e com música suave. Havia o silêncio da intimidade. Eu estava longe do meu mundo e de minhas referências femininas. Sentia-me desconfortável com aquela roupa pesada, com as armaduras e sem espaço. Nem conseguia respirar direito. Estranhei quando aquele homem entrou.  Ele não sabia porque estava ali. Com aquela indumentária e com aqueles modos de forçada afetação.  Ele rangeu os dentes quando me viu. Mas sorriu por obrigação e eu o encarei com a frieza de quem deve ser servida. Serviu minha comida com cuidado e com delicadeza. Louvei sua beleza. Ele baixou os olhos timidamente. Eu era uma mulher samurai e ele um homem gueixa.

Clicia

Quase morri sem ver o mar

Afasto as cortinas antiquadas. O meu olhar avança indiscreto. Salpicam janelas em todo o horizonte, que se arrasta num pôr-do-sol intruso de solidões, como se o desamparo do limbo tivesse dado morada à paixão. Minha mãe, envolta em décadas e franqueada de marcas alheias aos cinquenta e tantos anos que compartilhamos (amores que eu não soube, dores que eu não vi), se rebate, poucos metros adiante, com a morte. Não há véu que cubra o momento nem cantiga que perfaça o silêncio. Somos apenas nós quatro, eu, ela, a fria São Paulo de julho e o iminente alcance do fim. “Quando não há esperança é que o mundo começa”, lembro de ter lido, não sei se num muro, não sei se num livro, não sei se no muro de um livro. Não há esperança. Nada vai começar. O que reverbera, acalentado pelos espaços nada serenos do câncer que corrói minha parideira, são gemidos crus. Quase muda, ela me chama ao pé da cama. “Ana”, diz, “sabe o que me alenta?”. Eu, dor de filha a não mais poder e nada mais a que chorar, respondo que não, não sei (não fomos, eu e minha mãe, de compartilhar quinquilharias de afeto. Antes, fomos duras, impenetráveis, como devem ser as mulheres abandonadas - que se reproduzem como moscas na minha história: primeiro minha avó, depois ela, depois eu, em breve a minha filha). “O que me alenta, Ana, foi ter passado a lua-de-mel em Santos, antes do teu pai ir, antes de você vir”. Eu não sei se sorrio com a lembrança indiscreta, a imagem dos bigodes do pai que não conheci, ou se afundo na profusão de sons da ausência. Acendo um cigarro. Ela urra. Mais uma vez ensaia meu nome, segura meu braço direito com força minguada, roça a ponta dos dedos amarelados na minha mão: “Ana, eu quase morri sem ver o mar”. E fecha os olhos pela última vez.

Giovana

Uma mulher ia a uma conferência...

Li nos olhos dela... Doutora Carolina estava com medo.  Eu a observava e não comentei com ninguém, mas sabia que ela estava apavorada. Mantinha-se aparentemente fria. Ela encarava os três cães parados na entrada do edifício. A conferencia iria começar em poucos minutos. E a  doutora não conseguia entrar. Todos entraram; menos ela. Só eu percebi que ela não conseguia mais andar. Estava petrificada em frente aquelas três criaturas sem saber o que fazer.  Ela podia recuar e sair correndo, mas tinha que estar na conferencia de qualquer jeito. O governador estava lá e todo o secretariado. Era fácil ignorar os cães e entrar. Algo superior a ela a paralisava.  Alguma coisa terrível acontecia dentro daquela mulher corajosa que tinha enfrentado gente muito pior do que aquelas três feras. Tinha enfrentado o crime organizado e, no entanto, se sentia ameaçada por três seres imóveis. A conferencia não podia esperar. E eu não queria que os outros descobrissem a doutora Carolina naquele estado.

Eu precisava ajudar. Eu queria ajudar. Ouvi que alguém chamava seu nome: - doutora Carolina, está na hora da conferencia. Tudo bem com a senhora? Ela custou a responder... - Siiim. Já vou... E não foi. Seria um desastre se algum jornalista visse aquela mulher forte numa fragilidade angustiante. Ela não merecia. Não merecia que a observassem com um medo insano; fruto de uma mente cansada de lidar com tanta violência. E faltava tão pouco para ela se aposentar...  Uma carreira brilhante.

Tive coragem e cheguei perto dela: - doutora, eu posso afastar os cachorros para a senhora passar... Ela olhou para mim meio morta e disse:  Você pode?  Eu respondi: - Eu conheço esses bichos há muito tempo... Feche seus olhos e eu dou um jeito... A mulher fechou seus olhos e eu cobri os três cães de mármore com os tapetes da entrada do edifício.  Falei:  Eles já foram, doutora... Ela disse quase sem forças: - Para onde? Você matou? - Não, não foi preciso. São animais dóceis... A doutora deu o primeiro passo, o segundo, muitos passos. Entrou na sala da conferencia. Anunciaram seu nome: - Temos a honra de receber nossa conferencista, doutora Carolina Lobo. Ouvi muitas palmas.  Ela merecia...

Clicia

Quase morri sem ver o mar

Toda vida me orgulhei de ser nascido e criado em Minas Gerais. Jamais tive sequer a vontade de sair de minha cidade natal, Barbacena. Tudo no local sempre caiu bem em mim, as pessoas, o ambiente, a comida... mas aos meus 78 anos percebi que a cidade estava modernizada demais.

Passei grande parte da minha vida cultivando rosas nos Campos das Vertentes e não tinha grandes ambições. Sempre fui feliz acordando cedo e indo para a lida cuidar das minhas plantinhas. É claro que me casei, tive filhos e depois netos, pois as pessoas são parte importante da minha vida.

Mas agora estava ficando cansado dessa correria da modernidade. Meus netos só pensavam em jogar o tal do “vídeo game” e ficar grudados naqueles computadores. Não sabem e nem querem aprender a ver a beleza que é o botão virar flor, a magia da natureza. Isso a cada dia me deixava mais magoado.

Era mais um dia como os outros. Acordei com o cantar do galo, e o barulho dos carros na estrada que foi construída próxima a minha casa há alguns anos. “Saudades da paz no campo de antigamente!”, pensei já desanimado com o dia que começava.

Levantei-me, fui ao pequeno galinheiro e apanhei alguns ovos para o café da manhã. Chegando à cozinha encontrei minha esposa, Gumercinda, já a postos no fogão coando o café e fui surpreendido por um pedido dela:
- Bom dia, meu velho. – disse meio cabisbaixa. –Você me faria um favor?
- Já busquei os ovos, nem precisa pedir. – a atropelei acostumado com as tarefas do dia a dia.
- Não, não era isso. É um pedido encarecido de uma mulher que está ao seu lado há 60 anos... Me leva para ver o mar?
- O mar? – fiquei confuso, já estava ela bagunçando todo o meu dia.
– Mas por que o mar? Agora, depois de todos esses anos? Nunca falou isso antes!
- Ora, Orlando! – comecei a ver aquela braveza que conhecia bem em seu olhar. – Eu só não quero morrer sem ver o mar, sem saber como é!
- Diacho! Você já sabe bem como é? Essas novelas da televisão só fazem mostrar o mar. Ontem mesmo estava - fui interrompido bruscamente.
- E desde quando ver na TV é a mesma coisa? – estava irada agora. – Dá para fazer a vontade da sua esposa pelo menos dessa vez? Já estou velha. Deve me faltar pouco tempo. Não quero morrer sem ver o mar!

Suspirei profundamente, não gostava dessa estória de que estávamos velhos e tínhamos pouco tempo de vida. Entretanto, teria que realizar esse pedido dela. Gumercinda sempre foi a melhor esposa do mundo. Cuidando bem de mim, dos nossos filhos e ainda me ajudando todos os dias no roseiral. Não poderia negar esse desejo. O que a gente não faz por amor?

-Que tal no final de semana? – agora meu tom era de derrota. -Tenho que revisar o velho Chevette. Ele nunca foi para tão longe.
 “Nem eu” – pensei.
- Para mim está ótimo! – de repente toda a braveza foi embora e o sorriso apareceu. - Assim combino com o Zezinho para ficar olhando as flores.

Deixei os ovos na pia e sai mal humorado. Eu não precisava ver mar nenhum! Não queria sair da cidade, dirigir horas e horas por um motivo tão besta. Nem sabia direito o caminho. Nunca antes tinha saído das minhas Minas Gerais. Mas como manda quem pode e obedece quem deve... lá fui eu assuntar com todos meus amigos na praça para aprender como ir. Todos disseram que era uma loucura com a nossa idade viajarmos para tão longe, mas eu não podia me levar por isso. Estava ótimo e não suportava essas barreiras que todos impunham com a questão da idade!

Após longos preparativos, brigas com os filhos que queriam vir conosco e ouvir caminhos e estradas que a minha memória não permitia mais que gravasse saímos no sábado pela manhã.

A viagem não foi nada fácil. Após duas horas paramos para almoçar e esticar os ossos. Não tínhamos mais disposição para ficar chacoalhando tanto tempo no carro. Talvez as pessoas tivessem razão, mas não daria o braço a torcer.

Mais duas horas e estávamos percorrendo a famosa Avenida Atlântica. Podia ver o infinito azul longe, assim como as areias esbranquiçadas. Logo tratei de arranjar um local para estacionar o Chevette preto e caminhamos até a praia. Percebi que Gumercinda estava ansiosa, as mãos suavam e tremiam levemente entre as minhas.

Quando pisamos à areia meu coração acelerou. Suspirei fundo e não pude evitar as lágrimas teimosas que vieram borrar minha visão. Parecia que agora eu estava dentro da televisão. A sensação da areia sob os meus pés não se assemelhava em nada com o pisar na terra do plantio das rosas. A areia era granulada, grossa, rústica, mas ao mesmo tempo refrescante.

Caminhamos lentamente até a beira d’água e ficamos ali, um tempo infinito, que não sei precisar, parados, admirados, observando o vai e vem das ondas. Eu realmente poderia passar dias ali, apenas vendo como Deus trabalhava na perfeição do mundo e da natureza. Da mesma forma que o botão se abria em flor o mar ia e vinha, comandado por algo maior.

Pelo jeito só eu poderia ficar apenas observando, pois minha esposa logo ergueu seu vestido até os joelhos e tratou de colocar os pés na água. Ela sorriu, olhou para mim e fez um gesto para que me aproximasse. Desconfiado fui andando pé ante pé até ficar próximo a ela. Foi quando a onda se aproximou e pude senti-la na minha pele. A sensação foi maravilhosa. O frescor da água levava todo o cansaço daqueles pés idosos que haviam dirigido por horas a fio. Sorri para ela e falei a primeira palavra desde que havíamos chegado à avenida.
- Obrigada, meu amor. – levei minha mão direita à bochecha dela e acariciei delicadamente. –Quase morri sem ver o mar, mas graças a você isso não aconteceu.
- De nada, meu velho teimoso. Sabia que você também gostaria de ver. – ela sorriu e colocou a mão por sobre a minha, em seu rosto. –Te conheço como a palma da minha mão.

Passamos o restante do dia na praia e conhecendo um pouco da ‘cidade maravilhosa’. Após um lindo pôr do sol fomos para um hotel, já que não conseguiríamos viajar de volta hoje. Um cansaço enorme se abateu sobre mim e resolvi deitar para descansar. Minha esposa deitou-se ao meu lado e fiquei grato por tantos anos de companhia.
- Eu te amo. – disse pela primeira vez.
- Eu sei, também te amo. – ela respondeu com brilho nos olhos.

Logo dormimos. Meu sono era profundo, sem sonhos. Não mais acordei.

Vivian

The book is on the table

Que sou um objeto, eu sei. Talvez, apenas, não seja como outros quaisquer. Tenho dupla personalidade. Sou um livro e, ao mesmo tempo, o seu conteúdo.

No momento, estou na mesa.  Uma mesa de debates a respeito do meu futuro. Sabem, é revoltante e, confesso, angustiante ouvir as previsões apocalípticas que alguns vislumbram para mim diante da chegada do tal e-book. Afinal, eu, um símbolo de status, não posso ser substituído assim, de repente... Ou será que sim?

Bem, vamos retornar à época do meu nascimento e às dificuldades que enfrento desde então. Talvez, assim, vocês compreendam a minha indignação.

Com certeza, o meu conteúdo não foi prematuro. O meu autor insistia em revisar vezes e mais vezes o meu texto, até que, um dia, o seu editor exigiu a entrega do original.

Ufa! Já estava cansado de ouvir o meu autor ter dúvidas a respeito do meu conteúdo e receio do próprio fracasso. Cheguei a ter pesadelos com a biblioclastia e a temer o triste destino de alguns antepassados meus.

Enfim, depois de alguns meses, nasci – o primeiro exemplar, com capa, título, folha de rosto e tudo o mais que um livro tem direito.

Aí, então, começaram outros problemas. A primeira tiragem será de quantos exemplares? Quais os resultados da pesquisa de mercado quanto à receptividade do título pelos leitores? Trata-se de uma obra de interesse geral ou específico?

Resolvidas essas questões, os meus exemplares são providenciados e distribuídos às livrarias, onde precisam disputar espaço em prateleiras apertadas e lotadas de outros títulos. Alguns leitores passam direto. Outros param, lêem o título e só. Alguns nos tiram da estante e nos folheiam. O toque dos dedos e o seu deslizar por sobre as linhas do nosso texto são sensações maravilhosas... Fim do sonho e de volta à prateleira. E, assim, os dias passam; até que um leitor não passa, para e lê o título. Tira um de nós da estante e folheia as páginas suavemente. Fecha o exemplar, aproxima-o do seu rosto e, quase imperceptivelmente, inspira. O leitor dirige-se ao caixa carregando orgulhosamente o sortudo exemplar.

Sou um livro e sei a emoção desse feliz encontro entre leitor e título na Babel que é uma livraria.

Vai e-book. Agora é a sua vez. Mostre do que é capaz.

A sua vida é muito mais fácil. Não tem prateleira lotada na livraria. Não tem o suspense da paradinha de leitores. Mas, também, não tem toque de dedos. Não tem cheiro. Aha! Nem fogueira tem. Para acabar com um e-book, basta deletar o seu texto. Que falta de dramaticidade.

Aqui, de volta ao tampo da mesa, grito silenciosamente para o meu autor e para o seu editor: “Não me lancem em infinitos exemplares!”; afinal, não quero que os meus exemplares virem encalhe – que palavra horrível - e fiquem esquecidos em depósitos escuros. Ou, pior, sejam triturados e reciclados.

Não me incomodo de ter poucos exemplares. O importante é que eles encontrem os seus leitores e cada dupla viva uma experiência única e fascinante quando e onde o leitor assim desejar.

Como objeto, existo há muito tempo e já enfrentei outros supostos inimigos que, segundo diziam, me substituiriam. Aha! Continuo vivo e cobiçado, especialmente pelos amantes do livro. Então, não será o e-book que me derrotará. Ele é só mais um suporte diferente para o conteúdo e poderá até conquistar os amantes da leitura.

Já os amantes do livro serão sempre leitores fiéis a mim. Não me importo de esperar por eles. Mesmo que seja no aperto de uma prateleira de livraria. Muito melhor do que na imensidão vazia da internet.

Maria Paula

Novo Conceito na Tecnologia da Informação

Na deixa da virada do milênio, anuncia-se um revolucionário conceito de tecnologia de informação, chamado de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas - *L.I.V.R.O.*

*L.I.V.R.O.* representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, pilhas. Não necessita ser conectado a nada nem ligado. É tão fácil de usar que até uma criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada *L.I.V.R.O.* é formado por uma seqüência de páginas numeradas, feitas de papel reciclável e capazes de conter milhares de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantêm automaticamente em sua seqüência correta.

Através do uso intensivo do recurso TPA - Tecnologia do Papel Opaco - permite-se que os fabricantes usem as duas faces da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os seus custos pela metade!

Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para se fazer *L.I.V.R.O.s* com mais informações, basta se usar mais páginas. Isso, porém, os torna mais grossos e mais difíceis de serem transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema.

Cada página do *L.I.V.R.O.* deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, em seu cérebro. Lembramos que quanto maior e mais complexa a informação a ser transmitida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.

Outra vantagem do sistema é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite o acesso instantâneo à próxima página. *O L.I.V.R.O.* pode ser rapidamente retomado a qualquer momento, bastando abri-lo. Ele nunca apresenta “ERRO GERAL DE PROTEÇÃO”, nem precisa ser reinicializado, embora se torne inutilizável caso caia no mar, por exemplo.

O comando “browse” permite fazer o acesso a qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com o equipamento “índice” instalado, o qual indica a localização exata de grupos de dados selecionados.

Um acessório opcional, o marca-páginas, permite que você faça um acesso ao *L.I.V.R.O.* exatamente no local em que o deixou na última utilização mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou marca de *L.I.V.R.O.* sem necessidade de configuração.

Além disso, qualquer* L.I.V.R.O.* suporta o uso simultâneo de vários
marcadores de página, caso seu usuário deseje manter selecionados vários trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com o número de páginas.

Pode-se ainda personalizar o conteúdo do *L.I.V.R.O.* através de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada - L.A.P.I.S. Portátil, durável e barato, o L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro. Milhares de programadores desse sistema já disponibilizaram vários títulos e upgrades utilizando a plataforma *L.I.V.R.O.*

Dia de Azar

Correr, era minha única alternativa. Tudo dera errado desde que me levantei hoje cedo com o objetivo de tão logo chegar ao compromisso agendado há mais de um ano, à Conferência Mundial de Direitos Humanos. Entretanto, agora só me restava correr. Três grandes cães da raça dobermann vinham em meu encalço, e não pareciam nada amistosos. É claro, afinal eu havia invadido seu espaço de guarda.  Mas como eu consegui errar o caminho de tal forma a vir parar nessa emboscada?

Tudo começou quando tirei meu pé esquerdo da cama ao acordar e pisei no chão. Levantar desse lado da cama do hotel não poderia me dar boa sorte. Dali em diante foi uma sucessão de má sorte. Ao sair do quarto a chave prendeu na porta e quebrou. Não tinha tempo para consertar isso agora, então guardei a chave quebrada e segui para o restaurante para tomar apenas um café e não ficar de estômago vazio. Obviamente minha mão tremeu e logo o café caiu na calça bege claro do meu conjunto. Limpei com um papel e segui em frente.

Saí do hotel disposta a pegar um taxi na portaria, entretanto todos os carros estavam ocupados e após 10 minutos aguardando desisti e resolvi andar as cinco quadras até o Centro de Convenções no qual a conferência começaria em 10 minutos. No caminho tropecei e enfiei o pé direito em um buraco, facilmente o salto do meu escarpin quebrou e tive que seguir mancando por quatro quadras.

Quando finalmente estava à frente do grande casarão no qual estava iniciando a conferência estranhei estar tudo fechado, mas o portão estava destrancado, assim sendo entrei sem nem cogitar haver algo errado. Os gramados estavam vazios, mas só podia ser porque eu estava atrasada e todos já estavam lá dentro. Andava rapidamente em direção à porta de entrada quando ouvi rosnados atrás de mim. Lentamente me virei e pude ver os três cães, parados olhando para mim, rosnando raivosos. Primeiro tive o impulso de ficar parada, mas em seguida a adrenalina percorreu meu corpo e corri como se não houvesse amanhã.

Esbaforida, descabelada e amedrontada cruzei novamente o portão e o fechei atrás de mim, sentindo o bafo de uma investida do maior dos cães, agora preso do outro lado e latindo nervosamente. Respirei aliviada e resolvi voltar para o hotel, não conseguiria chegar mais a tempo para a abertura do evento. Eis que voltando tropecei e cai em um buraco. Em um pulo, sobressaltada, acordei. Teria uma nova chance de refazer esse dia.

Vivian

Contos de Fadas

Muito além de sua imaginação, as meninas vivem os contos de fadas.

Ainda pequenas, meninas vestem-se de princesas da cabeça aos pés e agem como as suas personagens preferidas. Umas chegam a declarar que se chamam Cinderela e passam a calçar apenas um pé do sapato, inclusive para ir à escola. Outras são Branca de Neve e se recusam a comer maçã, porque pode estar envenenada; o que, aliás, é bastante conveniente para quem detesta frutas. Outras são Rapunzel e determinam que nunca mais cortarão o cabelo para que possam jogar as suas tranças pela janela da torre. Há aquelas que se consideram Ariel e passam o dia cantando e penteando os longos cabelos vermelhos com um garfo.

Trata-se do lado mágico e fantasioso da criança.

Os pais, maravilhados com a criatividade e a encenação da filha, acabam participando da brincadeira e prolongando a felicidade dela. Eles aproveitam, ainda, para tirar mais algumas fotografias enquanto pensam se há algum mal no fato de a filha se considerar e se comportar como uma personagem de contos de fadas. Não. Afinal, mulheres não andam pelas ruas vestindo longos trajes salpicados de bordados cintilantes e cabelos adornados por uma coroa de falsas pedras preciosas de plástico. Além do mais, a filha fica tão linda fantasiada!

O tempo passa, as meninas crescem. Os contornos de seus corpos mudam e, aos poucos, ganham traços da puberdade. As fantasias de princesa e os seus inúmeros adereços saem do armário para dar lugar a calças jeans, mini-saias, shorts, camisetas de malha, batas, tênis, celular e i-pod.

No entanto, as meninas-moças continuam sonhando. Sentadas na sala de aula, enquanto o professor discorre sobre algum longínquo fato histórico, ou demonstra alguma incompreensível fórmula da Física, ou explica, mais uma vez, a importância do uso adequado dos modos e tempos verbais, elas sonham acordadas e fantasiam...

O primeiro beijo roubado, o primeiro selinho e o primeiro beijo de língua... A primeira paquera, o primeiro namorado... O primeiro cartão, o primeiro bichinho de pelúcia, as primeiras flores... O primeiro programa, o primeiro jantar romântico, a primeira transa...

Ansiosas, as meninas-moças se esquecem que, cedo ou tarde, cada uma delas viverá todas essas experiências, seguidas de segundos e de muitos outros beijos... Inúmeros namorados... Vários presentes... Outras transas...

O tempo passa, as meninas-moças crescem. Os seus corpos ganham novos contornos. Tornam-se jovens mulheres.

Contudo, as jovens mulheres continuam sonhando. Não raro, durante as aulas na faculdade ou na pós-graduação ou, então, nas reuniões de trabalho, as jovens mulheres se deixam levar por fantasias... Não. Não. Não. Ah, só mais um pouquinho... Não. Não. E não! Apesar de sua pouca experiência, elas rapidamente recobram o foco e, com um pouco de esforço, voltam a se concentrar nos aborrecidos temas das aulas e das reuniões. Afinal, já foram tantos programas desmarcados, namorados egoístas, beijos e transas vazios de emoção e carinho...

É, as jovens mulheres passam a evitar sonhos e fantasias; pois, assim, não se decepcionam e ainda têm a chance de receberem uma agradável surpresa no final de semana.

O tempo passa e as jovens mulheres amadurecem. O amadurecimento confere às mulheres uma tranqüilidade interior e a capacidade de superar as dificuldades que a vida lhes reserva.

Aos homens, pode parecer que as mulheres, já maduras, finalmente compreenderam que já não têm mais idade para viver os contos de fada; afinal, mulheres maduras não cobram mais flores, jantares à luz de vela, finais de semana românticos, declarações de amor ou beijos apaixonados, muito menos em locais públicos.

Os homens estão enganados.

Apenas, as mulheres maduras estão cansadas. Cansadas de fazerem pedidos que não são atendidos e de ouvirem promessas que não serão cumpridas. Então, elas simplesmente continuam sonhando e fantasiando que os seus homens, um dia, virarão príncipes encantados e dirão:

o       “Amor, desmarquei o encontro com os amigos porque hoje quero me divertir só com você”, ou;

o       “Ah, amor, hoje é domingo. Vem, vamos ficar na cama até mais tarde”, ou, então;

o       “Amor, não faça planos para o final de semana, nem perguntas. Apenas arrume a sua mala”, ou, ainda;

o       “Entre no quarto de olhos fechados, tire a roupa, deite na cama e relaxe durante a massagem”.

Mas, enquanto os seus homens não assinalam qualquer uma das alternativas acima, as mulheres maduras seguem vivendo, dando a falsa impressão de que não se importam mais; quando, na verdade, adorariam que os seus homens compreendessem alguns detalhes do universo feminino.

Homens conseguem acreditar que mulheres realmente adoram academias de ginástica e salão de beleza – com aqueles secadores de cabelo que queimam o couro cabeludo e a difícil opção entre uma depilação com cera quente ou fria.

Não. Mulheres apenas se submetem a alguns sacrifícios para aparecerem cada vez mais belas diante de olhos que nada percebem...

No contexto do universo feminino, o dinheiro gasto com uma roupa nova ou uma lingerie sensual não se resume a um ato perdulário. Na verdade, as mulheres simplesmente precisam de mais alternativas para tentar surpreender os homens e arrancar deles uma atenção passageira. Aí, os homens reclamam que elas demoram a se arrumar e estão sempre atrasadas.

Não. Mulheres somente se esforçam – e muito – para agradar os homens, que, entediados de esperar, apesar de terem sido agraciados com mais alguns minutos diante da televisão, nem reparam em quão deslumbrantes as mulheres se fizeram para eles, reclamam e acabam estragando o momento.

Homens jamais compreenderão que inúmeras chamadas não atendidas no celular, longe de significarem vigilância cerrada, demonstram um carinho de suas mulheres, que, apesar de seus intermináveis afazeres diários, sempre encontram tempo para pensar em seus homens e dizer “Oi, amor. Só liguei para dar um beijo”.

O tempo passa. As mulheres maduras envelhecem.

O envelhecimento é impiedoso e vem acompanhado de indesejáveis novos contornos no corpo, fios de cabelo branco, rugas de expressão e marcas. Muitas marcas.

Marcas de uma infância peralta. Marcas de uma adolescência rebelde. Marcas de uma juventude intensa. Marcas de um amadurecimento sereno. Marcas de um envelhecimento sem volta.

Então, para conseguirem sobreviver às surpresas que a vida ainda lhes reserva, as mulheres idosas voltam a sonhar fantasias envelhecidas, algumas vividas, outras nunca sabidas. E, assim, no tênue limite entre o real e o imaginário, essas mulheres resgatam os velhos contos de fadas.

Muito além de sua imaginação, as mulheres idosas revivem os contos de fadas.

O tempo passa. As mulheres idosas morrem e os contos de fadas chegam ao fim.

Maria Paula

...quase morri sem ver o mar

Todos o chamavam de Lateral, mas o seu nome era João Pedro. Há algum tempo na instituição João tinha certas singularidades. Perdera toda a noção de identidade, havia esquecido o passado e balbuciava palavras sem sentido para os demais... e se um dos demais fosse o Argemiro, o auxiliar da enfermaria, a coisa não ficava fácil.

Argemiro, um nordestino de cabeça chata, tinha alma de cangaceiro e ruim como o demônio. Uma pessoa inteiramente desqualificada para a tarefa que exercia – cuidar de doentes mentais – no entanto, alguém de influência lhe arrumara o emprego e ali foi ficando. Fazia as tarefas simples de faxina e lavanderia, além do encargo de levar os internos para o café da manhã.
- Como é Lateral, olha o café aí...!
- ...o mar ...o mar, balbuciava o Lateral.
- Vamo logo Lateral, chega de moleza!
- ...o mar ...o mar.
- Vamo aiiií, Lateral!!!
Custava um pouco para pegar, mas depois que engrenava o Lateral vinha bem. No corredor seguia murmurando seu mantra particular: ...o mar ...o mar ...o mar ...o mar...

Apesar de sua excentricidade, Lateral era uma figura querida. O seu apelido nada tinha haver com a posição consagrada por Nilton Santos, devia-se ao seu jeito peculiar de ser. Estava na lateral da realidade, transitando em uma área periférica de difícil acesso e compreensão. Embora em uma instituição psiquiátrica a excentricidade seja a regra, o Lateral extrapolava um pouco o padrão; e a diferença se fazia notar. O único a lhe respeitar era o Dr. Luiz Paulo Monteiro e Silva, o diretor da instituição. Atento a detalhes e minúcias o Dr. Monteiro só lhe chamava por João Pedro no esforço de resgatar a subjetividade do brilhante engenheiro da Petrobrás. Com a paciência de um chinês preso, dispensava uma atenção toda especial para o João – um caso digno de constar nos anais da psiquiatria.

João Pedro foi daquelas poucas pessoas que provaram o gosto da felicidade intensa. Com dois ótimos filhos constituía com a mulher um dos casais mais bem ajustados. Solange, sua mulher, além de linda e encantadora era conceituada socióloga bastante conhecida pela sua atuação em projetos sociais. Tudo corria bem até o fatídico dia. Comemoravam os vinte e seis anos de casados no restaurante onde iniciaram o namoro, e como convinha à ocasião – um jantar a dois. Na saída foram abordados por um moleque de no máximo quinze anos.
- Olha aí, doutô... é cinco real.
- Mas eu já paguei ao guardador, disse João enquanto abria a porta do carro.
No instante seguinte o pivete de olhar esbugalhado saca um 38 e descarrega todo o ódio em uma rajada no rosto de Solange. A face é transfigurada em segundos... o maxilar salta fora... o sangue jorra no rosto de João... e Solange tomba inerte. João estupefato não podia crer no que via e quando chega o socorro estava mudo e distante... muito distante. Era tarde... a sua mente se transformaria para sempre.

Nesse estado de catatonia total o Dr. Monteiro o vislumbra pela primeira vez. A internação foi a única solução possível para a família, não havia alternativas. Desde o primeiro momento Dr. Monteiro percebe que o novo interno demandaria um tratamento diferenciado. Durante algum tempo em estado de choque, João não disse uma só palavra,  o que lhe valeu o apelido de Lateral. Em certo dia descobre uma inscrição no muro do pátio – QUASE MORRI SEM VER O MAR. Fica intrigado. A partir daquele momento, anda pelos corredores murmurando: ...o mar ...o mar ...o mar. Apesar do estranho o Dr. Monteiro achou o fato positivo, era o primeiro objeto fora de si-mesmo que despertara alguma reação no Lateral. Deveria ter algum significado... mas qual???

A mudança aparentemente pequena fez a diferença. Alem do monótono discurso, Lateral trocava algumas palavras com os outros internos. Tem início um lento e expressivo processo de socialização. Através dos mais antigos descobre que o autor da frase era o Amauri, um interno com o desejo enorme em conhecer a praia. Obviamente o Lateral ficou curioso, mas Amauri já tinha saído da instituição. A descoberta o induz a alterar o seu mantra: ...amauri ...amauri ...amauri. O repertório se amplia, conservando, no entanto a mesma monotonia: ...amauri ...amauri ...amauri. O Dr. Monteiro tem um palpite e muda o enfoque. Amauri, o mar e a frase do muro poderiam se constituir em uma ponte para realidade e assim começa a explorar esses objetos nos seus atendimentos. Dá uma ordem expressa a todos os funcionários para que tratem o interno somente por João Pedro, precisava resgatar a identidade daquele pobre homem. Perde a esportiva com Argemiro, que apesar das recomendações insistia em chamá-lo de Lateral. E só depois de ouvir muito desaforo do diretor, o tacanho nordestino entende as ordens. Com atendimentos diários João era especial. O tratamento lento e muito cuidadoso esboçava poucos resultados. Um desafio para o Dr. Monteiro.

Em uma segunda-feira de céu limpo e sol radiante, o Dr. Monteiro é mais ousado. Decide contar para o João Pedro toda a história de Amauri esclarecendo mistérios que porventura houvesse.
- Pois é João, você sempre esteve muito curioso acerca do Amauri... não é?
- É....
- Então... o Amauri esteve internado aqui por algum tempo, e saiu novinho em folha. Veio para cá direto do interior de Minas. Nunca havia visto o mar e por isso tinha um desejo enorme em ir à praia.
- É...
O Dr. Monteiro dá uma pequena pausa, acende um cigarro e prossegue calmamente.
- João... como eu ia dizendo, o desejo do Amauri em conhecer a praia era enorme, então achei por bem levá-lo pessoalmente à Copacabana.
- ...e ...e ele gostou?
- Nossa...! ele adorou. Foi quando escreveu aquela frase no muro. Depois passei a levar regularmente à praia e aos poucos ele foi melhorando bastante.
- e... e aí?
- E aí ele ficou muito legal, pouco tempo depois teve alta e voltou para Minas, voltou para casa da família.
 - ...legal!
- Legal mesmo. E desse modo eu espero que em breve você esteja de volta a sua casa.
A sessão teve um efeito extraordinário, pois a partir daquela dia o João Pedro melhorou sensivelmente. Retornava para estranheza do mundo real: a suposta realidade que a maioria convenciona como tal.

A sós em seu consultório, o Dr. Monteiro revia e relia as anotações do caso João Pedro. De início a incomunicabilidade criou uma barreira intransponível indicando uma viagem sem retorno. Encarcerado em seu próprio eu, em decorrência do trauma psicotisante, João busca uma defesa contra o externo ameaçador: o terror sem nome. O momento de transição ocorre ao perceber na figura de Amauri um objeto transicional, um objeto de apego no qual o João projetava os seus temores, suas ânsias, suas tristezas e sua esperança em voltar à realidade. Os objetos internos são espelhos da realidade e trabalhar o objeto Amauri foi uma forma oblíqua de romper a couraça impenetrável que havia criado. Com a elaboraração o conflito, o resultado superou a expectativa permitindo uma drástica redução dos medicamentos. Manteve apenas o antidepressivo e liberou os fins de semana para ficar com os filhos.

Já se passavam quatro meses desde que João Pedro recebera alta. Morava com o filho mais moço, o filho solteiro, e a sua rotina na Petrobrás voltava à normalidade. Tinha agendado, para a semana seguinte, uma visita à P-52 na bacia de Campos quando vai ao consultório do Dr. Monteiro. Apesar da alta mantinha uma rotina de atendimentos quinzenais dando prosseguimento ao tratamento, mas no trajeto do consultório encontra Argemiro no corredor.
- Como é Argemiro! Tudo bem!
- Tudo bem graças a Deus.
- Pois é... sempre volto para ver os amigos.
- É isso aí!
- O Amauri que foi para Minas é que nunca mais voltou.
- Ih... o Amauri não foi para Minas não senhor.
- Foi para onde???
- O Amauri morreu... num sabia?
- Não... coitado... como foi?
- Ué... pensei que o senhor sabia...
- Não...!
- É... ele fugiu daqui pra ir pra praia como fazia as vezes e aí teve uma vez que morreu afogado.
- Ele morreu afogado???
- Morreu né...! Mortinho da silva; foi falá com o Zé Maria.
- ................................................???
- O que foi seu João?....... tá passando bem?
- ...o mar ...o mar ...o mar... , murmurou o Lateral.

Richard

Um jantar inusitado – em Tokyo

Os dois se olhavam com intensidade enquanto conversavam e consumiam com aparente satisfação nacos de atum e haddock. Passados alguns minutos, ela deposita o "hashi" à beira do pratinho quadrado olhando surpresa para ele que se levanta com estardalhaço, por pouco derrubando a cadeira na qual estava sentado. Atônita ela o vê sair abruptamente pela porta, deixando-a ali sozinha. Através da vitrine do restaurante ela vê a silhueta dele ser engolida pela multidão e sua própria imagem refletida no vidro, deformada sob o efeito de milhões de pontos de  luz da noite de Tóquio.

Cristina

Mini Contos

Um dia, Hemingway escreveu uma história em seis palavras: “Vende-se: sapatos de bebê. Nunca usados”, e considerou a sua melhor história. Isto inspirou a revista Wired a pedir a vários escritores famosos a escreverem contos igualmente curtos. Eu, particularmente, tenho grande apreço por essa forma concisa de expressão. Escolhi alguns para mostrar a vocês. Eis aqui: 

Camisa tirada à pressa. Cabeça não. - Joss Whedon

Com as mãos sangrentas, digo adeus. - Frank Miller

O pênis dele rasgou-se; ele engravidou! - Rudy Rucker

Demasiado caro continuar a ser humano. - Bruce Sterling

Coração partido, 45, desejo conhecer mutilado. - Mark Millar

Epitáfio: Não o devia ter alimentado. - Brian Herbert

Por favor, é tudo. Eu juro. - Orson Scott Card

Pensei que tinha razão. Não tinha. - Graeme Gibson

Morri. E tive saudades tuas. Beijas-me? - Neil Gaiman

Desejei-o. Tive-o. Que merda. - Margaret Atwood


Publicado em 'Paralelos Insuspeitados' - Acesse Aqui

Entre Óculos e Lentes

Nunca parei para pensar o que eu poderia ter em comum com Herbert Viana. Na madrugada de hoje, no entanto, a ficha caiu.

Estávamos no ‘The Maze’ da Tavares Bastos, novos amigos e eu, admirando a belíssima vista da Baía de Guanabara que os menos privilegiados têm ao abrirem as janelas de seus casebres, quando uma pergunta casual me fez rever alguns aspectos de minha vida através de lentes diferentes. Que bandeira é aquela no telhado daquele casebre ali? Ora, uma míope convicta de que ninguém enxerga melhor do que eu, obviamente estava sem óculos; afinal era night. Já sabendo que estava enganada, respondi que a bandeira parecia completamente preta. Expliquei a situação enquanto procurava os óculos na bolsa. Surpreso, Rodrigo perguntou por que não uso lentes. Comecei, então, a contar a minha única experiência com lentes de contato. Um desastre absoluto!

É claro que qualquer mulher adoraria enxergar a cerimônia de seu casamento; ao que Rodrigo observou: até para ter certeza de que está se casando com o homem certo. Só que nenhuma gostaria de macular, com os seus óculos, a aura que envolve uma noiva atravessando a nave central da igreja. Assim, quando fiquei noiva, marquei imediatamente uma consulta no oftalmologista. O teste com as lentes foi um horror! Os meus olhos incharam e lacrimejavam tanto que foi difícil tirá-las. Então, meses mais tarde, conformada com a minha miopia e orgulhosa da minha elegância, entrei na Igreja Nossa Senhora do Bonsucesso ao som de Magnificat.

Voltando a Herbert Viana, se as meninas do Leblon não olhavam para ele por causa dos óculos, problema dele. Os meninos olhavam para mim – e muito – mesmo de óculos, que eram muitos e coloridos como os dele. Eu é que não olhava muito bem para eles, convicta que sempre fui de que enxergo tanto quanto as demais pessoas e ia para as noitadas sempre sem óculos. Problema meu, então. Se Herbert Viana sem óculos entrava com o seu carro pela contramão, sorte dele. Eu sem óculos e sem lentes que filtrassem aquilo que belo e maravilhoso me parecia, entrei pela contramão na minha vida. Mais uma vez, problema meu.

Mas, tal qual Herbert Viana, por trás das lentes dos meus óculos também bate um coração que, por amor aos filhos, não me permite quaisquer arrependimentos; até mesmo porque, Rodrigo, nunca temos a certeza de estarmos casando com a pessoa certa. Os óculos e as lentes de contato servem apenas para sabermos que estamos dizendo sim para aquela que escolhemos. Só.

A propósito, a bandeira era do Flamengo, um tanto já desbotada em seu vermelho e preto e rasgada pela excessiva exposição ao sol, ao vento e à chuva. Pena que os relacionamentos não resistam assim tão bravamente aos contratempos.

Maria Paula

... em apenas (1)um segundo

Vivo muito em apenas um segundo.
sentimentos e Emoções / paixões avassaladoras,
lindossonhosdelirantes – indagações reveladoras.
Sentimento-em-si não basta...
quero um Orgasmo transcendente que me faça sentir gente
e me sentir Especial.

especial também não basta.
Quero muito mais ainda,
a vontade é voraz – me devora o interior.
assim como em Prometeu
o abutre do desejo
me estraçalha totalmente.

percebendo que sou Deus,
Poderoso / desTemido.
assisto cenas do destino
com certeza invulgar
que nasci para vi-ver tudo.
Ser Eterno e singular.

a Ilusão é o Real,
realidade é meu viver
a ansiedade se anuncia
o desejo vira Horror.
a espera enseja o medo,
expõe a ânsia e o Pavor.

um momento transitório
de fraqueza inexorável
mas somente por instantes
..............da espera intolerável.
o Medo enfim se desvanece.
...finalmente... o Traficante aparece.  

vivo muito em apenas(1)segundo

Richard