Chet Baker

Chet Baker foi um dos expoentes do ‘Cool Jazz’. Além de excelente trompetista, foi um cantor intimista, com um estilo muito pessoal. Traduzia na voz o seu fraseado no trompete. A sua maneira de cantar foi marcante para a nossa música, uma vez que foi a grande influência de João Gilberto. Chet já cantava desse modo dez anos antes do surgimento da Bossa Nova. Na época era um músico conhecido apenas por uma pequena elite. Infelizmente a sua consagração só aconteceu após a sua morte, em 1988. Vale conferir.


Problemas existenciais

Que sacoooooo! Auuuula... To com soooono... Por que essa gente chata e burra começa as aulas antes do Carnaval? É pra’ pentelhar... Duas semanas de aula e pára tudo... Aula em fevereiro? Só prá nerd ... Sacanaaaagem... To com saudade do pessoal da minha outra escola. Será que a Tati e a Ju vão gostar do CEFET? Queria tá lá com elas... Mudar de escola é uma pentelhação... To nervooosa. Num conheço ninguém... Só vi padre e patricinha. Eeeca!!! Vai ser uma chatice... Aula de religião... Ninguém merece! Nem sou batizada... Será que eles vão perguntar isso? Aí, vai ser o maior mico!!! E se tiver muita patricinha na minha turma? Elas vão implicar comigo... Podrinhas... Não to nem aí... E se perguntarem se fiquei nas férias? Não fiquei com ninguém ... Vou ter que inventar... Cadê os gatooos dessa escola? Aaaah, ninguém vai olhar pra miiiiiiiim... Sou gooorda e horriiiiível... Eu tenho vergoooonha dessa picaaanha na barriga.... A Ju é feia, mas não tem picanha... To triste... To soziiiinha... Caraaaca!!!
Clicia

Olhos

Uma grande transformação aconteceu ao sentar-me num ônibus. O caminho, conhecido; nenhum acidente, nenhum prédio desabando. Também não houve nenhum súbito milagre com minha vista; Santa Luzia não ouviu prece nenhuma, continuo míope e com os óculos embaçados. A vida dentro e fora do ônibus - tudo absolutamente normal.

Mas meu coração mudou. Como minhas capacidades óticas continuam iguais, só pode ter sido meu coração que mudou, pois tudo o que via parecia novo. Ganhei um novo interesse pela cidade, por sua vida. O Rio deixou de ser caos, eu deixei de ser indiferente.

E, ante meus olhos, havia um boteco quase fechando, garrafas como troféus nas prateleiras - um pé sujíssimo, antiquadíssimo, a desafiar a modernidade, ali na calçada. Um velho decrépito estava sentado e o balconista chegou à porta, pitoresco, mãos na cintura, e me olhou. Parecia me desafiar: "Você aí, que nunca notou em mim! Aproveita que acordou para a vida e olha para o outro lado da rua também!" No outro lado, um entregador andava de bicicleta. Não era um entregador qualquer: era um rapaz que curtia a brisa noturna, depois de trabalhar um dia inteiro ao sol escaldante. Vi no seu rosto o prazer.

De repente, ele passou por um casal que se beijava num ponto de ônibus. Meus olhos deixam de seguir o rapaz e param nos namorados. O ônibus acelera. O beijo, o abraço, ficam para trás, mas eu não vou com o ônibus, meu coração fica. Dentro de mim, a vida fica. A cidade é mais bela e eu sou menos cega.
Sart

A Despendência do Amor

A madrugada de terça já corria alta e meu sono no seu décimo pesadelo quando acordei angustiada. Eu já tinha encerrado a segunda-feira, dia da oficina de crônicas, e nada, nada na minha vida de sempre despertava as palavras dentro de mim. O que eu fiz depois da aula? Andei por uma rua escura do Jardim Botânico, peguei e paguei o táxi, cheguei em casa, abri a porta, liguei e desliguei a televisão, escrevi e apaguei dois parágrafos de um roteiro, li e odiei um capítulo de um livro bobo e, finalmente, dei logoff nas minhas pestanas. Nada diferente, nenhuma conversa incrível, nenhum acaso perturbador, nenhuma paixão desnaturada. Sim, porque este é o melhor dos temas particulares que se veste público, não é? Rasgar o peito até sangrar e depois cerzir com uma linha bem grossa, daquelas de fazer filisteu corar.

E então eu me senti sozinha. Irremediavelmente sozinha.

Veja, não há nada mais grave do que não ter histórias. Você chega em casa e é recebido pelo gato, que te esnoba afetivamente. Depois, bebe um suco de laranja quase azedo comprado de manhã, toma um banho burocrático, passa o creminho francês, caro e cretino, para evitar as inevitáveis rugas, coloca a camisola especialmente para ninguém e vai dormir, ocupando apenas os 50% sem livros da cama king size. Eu, que amei os caras mais incríveis do mundo (e fui amada por eles com recíproca improvável), estava ali, com a segurança de um coração que bate só pra si. Que ódio.

Acessei a agenda do telefone, revi torpedos bêbados, reli e-mails de semanas atrás, relembrei os últimos encontros. Nada, ninguém que me fizesse ondas no ventre. Do último ano, pensei em todos os beijos na boca. Hum. Aquele cineasta chato. Não. Teve o escritor babaca. Nhé. O engenheiro que não entendeu muito bem minhas piadas. Não, não. O colega de trabalho que... deixa pra lá. E o ex-marido, mas ex-marido não conta.

Mal com a mesquinhez do meu cotidiano, tão banal, liguei para o amigo do peito, um loiro alto, lindíssimo, inteligente, delicioso e gay, claro. Ele, sem pudores, me disse exatamente aquilo que é preciso ouvir, aquela centelha de conhecimento que só a profundidade das relações é capaz de erguer, o melhor conselho que alguém pode dividir:

- Era só o que me faltava! Você quer uma fossa? Giovana, para de frescura e vai dormir, porra!

E assim eu fiz. Porque há homens que eu simplesmente obedeço.

Giovana

Livros versus livrarias

Tomei a pergunta com a inocência de quem está prestes (ou pensa que está) a saborear um prazer.
- Este livro é da livraria? – indagou a atendente do café da loja de livros.
- Sim! – respondi com ares de satisfação, de alguém que é pego fazendo o bem.
- Não pode! – a garçonete rapidamente sentenciou – aqui não pode!
Tentando entender a situação, logo consertei a resposta:
- Este livro foi da livraria, acabei de comprá-lo. Então, tecnicamente, é meu! Meu pode?
A atendente, meio sem jeito, disse:
- Da livraria não pode – afirmou, justamente como diria um trabalhador destreinado em tempos de discursos de exigência de empregadores por profissionais preparados para o mercado de trabalho competitivo.
- Então pode, pois agora não é da livraria, é meu – respondi sorrindo, balançando o cupom fiscal e a via do cartão de crédito relacionados com minha mais recente aquisição literária.
Estupefato, tentei continuar meu gozo, pedindo meu prato favorito naquele café de livraria, tendo sido informado que tinha, mas acabou. Troquei por outro, que se mostrou indecentemente sem graça. Ou, de repente, a graça tinha acabado justo quando fiquei sabendo que, na livraria, não se poderia ler livros. Fiquei pensando no paradoxo estampado em cores vivas e letras garrafais: na livraria pode-se tomar café, pode-se comer, mas não se pode ler livros. Os serviçais (palavra com atitude preconceituosa, mas plenamente apropriada a quem presta serviços) estão prontos, em questão de segundos, a impedir alguém de ler livros dentro da livraria. Ponderei comigo mesmo se a presença de um café dentro de uma livraria não seria somente para dar um "status" intelectualizado ao negócio. "Façamos de conta que somos intelectuais, afinal, estamos em uma livraria, mesmo que não se possa degustar um livro". Que se deguste o cachorro-quente com mostarda e "catchup" estilizados! Já não basta o visual dos livros nas estantes para te mostrar como uma pessoa culta?
Certo, pode-se pensar que os donos do empreendimento estão a cuidar do sue patrimônio que são os livros, impedindo-os de se sujarem ao serem manuseados por humanos que, além de sedentos por cultura, estariam esfomeados da mais mundana comida.
Após a leitura agradável, o vinho satisfatório e a comida sem sabor, constatei, meio constrangido, que meu mais novo livro (a única razão do impasse inicial da noite) tinha sido tingido coloridamente pelos molhos vermelho e amarelo do meu "hot dog" afrescalhado. Por um segundo pensei que os livreiros tinham razão da proibição, de início por mim tida como absurda.
Porém, após um segundo de reflexão, já inebriado pelo descobrimento da magia das crônicas, ou, sei lá, pelo vinho argentino que beirava a desonestidade (ou a isso somado), pensei com o cadarço de meu calção esportivo (na falta de botões, pois voltava da academia): a regra do livreiro seria que quem sujasse o livro deveria levá-lo para casa. Mais ainda, teria que lê-lo! Assim, com o hábito, quem sabe, um dia as livrarias voltariam a ser lugares de leitores, não apenas pontos de encontro com ares de sofisticação para a satisfação de umas das mais vis e inescapáveis necessidades humanas: a de comer e beber. Saúde!
Rodrigo de Lacerda Carelli

410

Passa o 410. Entro. Dou de cara com o motorista exausto, agora às 21:30, provavelmente completando a sua décima sexta hora de trabalho do dia. A roleta interage comigo mais do que o trocador. Os dois já estão cansados de estar ali. O trocador mal me olha, já a roleta... Ela está exaurida – imagina ficar rodando sem parar, sabe-se lá quantas vezes por dia e desde quando! Para me mostrar que está mais ambientada do que eu, me dá aquela travada. Sinto o baque, olho pro lado, se muito dou uma olhada pro trocador com cara feia. Pronto. Já fui denunciado, não sou passageiro profissional. Aquela auto-afirmação que poderia ter sido conquistada com minha desenvoltura e familiaridade na roleta me será negada pelas pessoas que testemunharam o incidente. Já era.

Passada a roleta chego ao corredor, que me assemelha a uma passarela. Três ou quatro passageiros me acompanham com o olhar. Vou me segurando porque a esta hora o motorista já passa a quarta marcha e o 410 me sacode de um lado pro outro, voando baixo na entrada da Voluntários, já sem trânsito. Finalmente, depois de muito malabarismo eu e minha mochila conseguimos sentar, não sem antes ter de pedir licença a um idoso que está ao lado do único assento vago, uma janela. Idoso é idoso, penso, por algum motivo se sentou ali e deixou a janela livre. Não para fugir do sol porque já é noite, mas talvez evitando uma gripe.

Olho pro lado e me dou conta de que acabei sentando no único lugar disponível e que não, não era o meu. Não é a quinta fileira... Começo a sentir os espasmos. A coceira na perna chega à alma que me angustia com uma sensação cruel de tristeza e é então que me levanto de um salto e peço licença novamente ao idoso. Passados apenas segundos de ter feito exatamente a mesma coisa, com toda a morosidade do corpo, ele é rápido em concluir que há algo errado. Ainda assim, se vira lentamente e me deixa sair. Começo a me sentir melhor no exato momento em que consigo vê-lo, o melhor lugar do 410, o encontro das janelas na quinta fileira do lado direito e o vento delicioso que entra por elas diretamente no rosto do feliz passageiro que, infelizmente, não sou eu.

Letícia Stallone

O Cavalo Nu

A aparente previsibilidade de um caminho que repetimos todos os dias durante anos é o que existe de traiçoeiro no banal. Porque nos compromete a percepção e nos vicia o olhar. Instantes cotidianos tornam-se invisíveis. Por vezes, é preciso um congestionamento fora de hora para nos forçar uma virada de rosto e a indagação, "Que casinha bonita! Ela sempre esteve aí?". Ou então algum tipo de acaso insólito.


O Alto da Boa Vista é meu itinerário de sempre. Sua maior virtude é pintar de verde as preocupações e os aborrecimentos profissionais. O restolho de mata atlântica debruçado em suas encostas, assanhando-se para os veículos, parece esticar seus galhos a fim de querer nos abraçar, pegar carona conosco, tal a opulência da vegetação diante do acanhamento da estradinha. E a despeito dessa mata fechada sugerir às mentes mais inventivas o esconderijo de duendes, fadas ou mesmo bosques encantados, um cavalo passeando a ermo no meio-fio ameaça todo o ecossistema do nosso senso comum.


Eu, que não fui criado em fazenda, não estou acostumado a ver um cavalo nu, sobretudo no asfalto. Entende-se sobre cavalo nu o cavalo sem sela, arreio e apetrechos do tipo, pois gente como eu, sem qualquer história bucólica de uma infância rural para contar, acaba tendo a impressão que os cavalos já nasceram com aquelas coisas todas. Quando surgem assim tão sem nada perto de nós parece pintura. Pois o cavalo nu passou trotando lentamente ao lado do meu carro, como um transeunte comum. Tudo bem que se estivesse vestido seria tão estranho quanto, mas sua nudez dava uma áurea mística à cena. Algo como um sonho. E a única prova de que não era, de fato, um sonho foi eu não ter me preocupado em apostar no número onze do jogo do bicho naquela mesma manhã. Ficou a imagem onírica, que o diretor de cinema sentado dentro da minha cabeça teima rodar em câmera lenta sempre que repetida.


O cavalo nu descia o Alto sem pressa. Atrás dele não corria nenhum vaqueiro desesperado ou domador em início de carreira. Nenhum cavaleiro inexistente. Nenhuma carroça esquecida no meio do caminho. Estaria indo ao trabalho sozinho? Tive vontade de saltar do carro e correr para lhe explicar que aquele não era o melhor caminho até o jóquei. Mas estava tão senhor de si que, obviamente, sabia o que estava fazendo. Eu é que não. Ignorante, mudo, me senti eu o bicho. E, sem dúvida, sua altivez e liberdade naquela hora do dia o tornavam mais gente do que qualquer um de nós, animais de carga cumpridores de expediente.


Ao longo do dia, a figura heráldica do cavalo nu permaneceu comigo. Me perdia em questionamentos a respeito do seu paradeiro, seu nome, seus afazeres, embora nada disso fosse importante. Tampouco importava se o encontraria de novo ou não. Com o juízo de um Don Quixote, eu já estava inevitavelmente montado na maior das perguntas: quantos cavalos nus eu deixei de ver ao longo da vida?

Leonardo João

Reflexões


"Tristes ainda seremos por muito tempo, embora de uma nobre tristeza, nós, os que o sol e a lua todos os dias encontram no espelho do silêncio refletidos, neste longo exercício de alma".
Cecília Meireles

Submarinos Afundados



Por que será que os vidros deste carro estão embaçados? Não está chovendo, nem mesmo está tanto calor assim – pelo menos em comparação com as últimas noites deste verão que, como todos os anos, é o verão mais quente dos últimos tempos. Sei que estamos em pleno aquecimento global, mas nunca ouvi falar de fenômenos localizados em cantos escuros de ruas pacatas cercadas de árvores.

Quando vi um leve movimento no carro estacionado, reconheci o fenômeno, que na verdade era outro: um casal namorando dentro do carro. A última vez que vi isto ocorrer devia ser há uns quinze anos. E eu era a protagonista.

Então pergunto: onde foram parar os casais de namorados jovens? Não estou me referindo a encontros efêmeros que têm como objetivo ir às vias de fato, mas de jovens casais em início de relacionamento, talvez o primeiro sério de um dos dois ou ambos. Aquela etapa em que o rapaz avança “uma base” de cada vez, em um jogo onde a menina tem a obrigação moral de se defender, retirando insistentemente a mão dele de onde quer que ela vá parar.

Não dava para jogar este jogo no sofá da sala da casa dos pais, mas ainda não tinham chegado ao ponto de ir a um motel. Então, acontecia no escuro do cinema, ou, no caso de outro programa, ambos ficavam ansiosos para o momento em que ele ia deixá-la em casa, provavelmente no carro do pai, em tempos pré-lei seca.

Ele estacionava um pouco antes ou um pouco depois do prédio, para não dar bandeira, mas não adiantava, o porteiro era sempre o primeiro a saber que a menina estava namorando (antes do pai, com certeza!).

Uma geração anterior ainda usava mais este recurso, até para a fase seguinte, em substituição ao motel: eram as “corridas de submarino”. Para quem não está familiarizado, os casais iam de carro para a beira da praia, com esta desculpa. Dizem que o termo surgiu durante a segunda guerra mundial e que os rapazes realmente convenciam as meninas de que poderiam ver um submarino passando (em São Paulo, por razões óbvias, era chamada de “corrida de disco voador”).

Por que será que acabou esta história de namoro no carro?

De imediato, penso na falta de segurança na cidade. As pessoas mal param em sinais de trânsito, e quando param, ficam bem atentas, imaginem ficar parado em uma situação em que a concentração no ambiente em volta é nula? Com isso, os pais ficaram mais permissivos. Preferem seus filhos em casa, mesmo que trancados nos quartos fazendo sabe-se-lá-o-quê, do que na rua.

Outra hipótese talvez seja mais conseqüência do que causa: a efemeridade das relações amorosas. Vemos jovens de ambos os sexos saindo à noite e competindo quem dá mais beijos na boca (em pessoas diferentes, claro).  A banalização do sexo, com a facilidade de acesso via TV e internet, pode ter criado uma geração em que esta fase de “avanço gradativo” no namoro seja considerada desnecessária.

Agora, para explicar por que este casal resolveu retomar este hábito antigo bem na minha rua, só tenho uma hipótese: eles devem morar aqui em frente, devem ser casados há uns sete anos, e estão buscando resgatar a magia do início do namoro. Nada como uma rua com guarita de segurança.

Gisela

Crônica Interrompida

Na segunda-feira passada, por alguns momentos, quis ser a colega que mora ao lado do POP. Morar num bairro com livrarias, com um jardim botânico, numa rua simpática e calma não deve ser ruim. Deve ser ótimo. Sem contar, que o prédio da moça parece interessante e o POP é um vizinho acolhedor que combina com tudo que está a sua volta.

Peço desculpas à colega por querer roubar sua identidade, mesmo que provisoriamente. Foi um pensamento passageiro, nada profundo. É que eu moro longe do POP. Não moro mal, mas tenho que enfrentar a ponte Rio-Niterói. E enfrentá-la várias vezes por semana é um constante treinamento de paciência, de desapego a horários e de observação a respeito de seu movimento. Nela, um dia não é igual ao outro.

Na ponte, um dia não é igual ao outro. Foi isso que me fez pensar que, pelo menos para escrever uma crônica sobre a volta para minha casa, eu poderia ser mais feliz do que a colega do Jardim Botânico. Eu não precisaria caminhar dez vezes do prédio até o POP para ver se alguma coisa interessante aconteceria. Desejei sinceramente sucesso para minha colega. E sai da oficina de crônicas. Fui ao encontro do foco de minha escrita.

Eu tinha uma fonte de inspiração: a ponte às dez e meia da noite. Acompanhada por caminhões e suas frases, motoristas de ônibus cansados, gente exausta dormindo nos ônibus, acidentes e obras. Talvez eu tivesse a sorte de ver um avião pousando no aeroporto, uma noite de estrelas, uma lua linda ou as luzes de uma plataforma iluminada.

Antes de chegar a Lagoa Rodrigo de Freitas, numa rua estreita, em frente ao sinal, ele parou ao meu lado. Era um carro quatro por quatro que me deixou com a sensação de estar espremida. Eu estava espremida. Encostei um pouco junto ao meio-fio e ele abocanhou outro pedaço do asfalto. A rua é de todos; dos espaçosos e dos sem espaços, pensei. O carrão estava agora na minha frente, num ângulo obliquo. Havia uma pintura no vidro traseiro e algo escrito. Não pude ler.

A pintura era uma de onça preta e branca. Uma onça preta e branca! Isso não existe... Bem, na selva dele, deve existir. Seria vascaíno? Botafoguense? Sei lá. Vai ver é só moderno e não gosta de cor...

O sinal abriu e segui o meu trajeto de sempre até o túnel Rebouças. A onça urbana continuava na minha frente e também entrou no túnel. Tive a esperança de que ela atravessasse a ponte e eu pudesse observá-la com mais calma. Ler o que estava escrito abaixo do desenho, encoberto por um painel. Ela corria dentro daquela caverna. Grandiosa, cheia de poder num carro que não combinava com a cidade, mas era digno do que a onça dizia para mim: sou fera. Eu segui a fera da metrópole. Talvez, no fundo, quando atravessasse a ponte, ela fosse tão provinciana quanto eu.

Mas a onça não atravessou a ponte. Seguiu para Cosme Velho. E finalmente pude ler o que estava escrito no painel: CONSCIÊNCIA. A palavra se interpôs entre mim, a ponte e crônica. Seria um conto? Não pensei em mais nada ao longo do trajeto. Percebi que o tempo todo, até chegar a minha casa, eu estava ouvindo notícias do Haiti.

Clicia

A Delícia do Desigual

Eu sempre me espanto com a beleza da feiúra. Ainda agora, visitando um poeta e, por acaso, topando com seu rosto, o olho um tanto caído, um nariz desfigurado, a boca pequena demais, me vi pensando: puta cara lindo! E era feio, evidentemente feio, despudoradamente feio. Feio sem pedir permissão.

Já me disseram que isso é alguma tentativa de salvar a minha alma (também feia) ou resignar os meus complexos (também feios) de não ser exatamente bonita (mas nem feia!). Talvez. Não ter traços e formas perfeitas nunca me causou grande desconforto. Melhor, causou desconforto naquela época da adolescência em que a amiga loira é sempre a cortejada pelos fortões do fundo da sala. Passada a fase da castração do louvor próprio, nós, mulheres imperfeitas, descobrimos que um movimento com a mão, uma frase bem empregada, um olhar derretido, uma ou duas tiradas sacanas vencem qualquer atributo divino impregnado no DNA da tal amiga. No final das contas, entendemos que elas eram bem das chatinhas e eles, os garanhões, uns babacas de marca maior. Por isso, ou pela dialética do meu papo doce e pérfido, eu nunca estive sozinha.

Abusando da Martinidade (salve a Vila, salve ele, salve Martinho!), eu já tive homens de todas as cores, várias idades e muitos amores. E feios (se você foi meu amor, leu isto e ficou ofendido, desculpe. Provavelmente não estou falando de você). Os bonitos - e houve alguns lindos - não conseguiram me matar de paixão. Pelos perfeitos, de testa retinha, boca desenhada e corpos com divisões claras entre os músculos, não chorei uma semana. Pelos que não se enquadravam, os vesgos, caolhos, de andar cambaleante, óculos grossos e algum desaviso, eu quis morrer, cortar os pulsos.

Pode ser coincidência, claro que pode, mas acho mesmo que é uma opção do olhar. Meu desejo vem no frêmito da imperfeição. E só Deus (e os meus suores) sabem da malemolência das paixões de rodapé. O cantinho mais escuro - e onírico - do desajuste me interessa mais do que a mesa bem posta e a luz direta. A via de contramão é sempre (um) melhor caminho. E os homens que não sorriem com dentes perfeitos, aiai, mordem como ninguém.


Giovana Manfredi

Pois é...

...agora é só escrever, comentar e postar – crônicas, estórias, citações interessantes ou qualquer outra matéria curiosa. Escrever é vestir a roupa da audácia despindo a própria alma em um exercício de liberdade.
             19 de janeiro de 2010